A Palo Seco, N. 13, 2020 - Escritos de Filosofia e Literatura 


A Palo Seco - N.13

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 12, N. 13, 2020
Escritos de Filosofia e Literatura


CONSELHO EDITORIAL

Alexandre de Melo Andrade - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Anelito Pereira de Oliveira - Universidade Federal de Minas Gerais/NEIA/UFMG, Brasil

Beto Vianna - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Camille Dumoulié - Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Celina Figueiredo Lages - Universidade Estadual de Minas Gerais/UEMG, Brasil

Christine Arndt de Santana - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Conceição Aparecida Bento - Univ. Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri/UFVJM, Brasil

Fabian Jorge Piñeyro - Universidade Pio Décimo/PIOX/Aracaju, Brasil

Fernando de Mendonça - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Jacqueline Ramos - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Jean-Claude Laborie -Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

José Amarante Santos Sobrinho - Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Leonor Demétrio da Silva - Exam. DELE-Instituto Cervantes/SE, Brasil

Lúcia Maria de Assis - Universidade Federal Fluminense/UFF, Brasil

Luciene Lages Silva - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Luiz Rosalvo Costa - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Marcos Fonseca Ribeiro Balieiro - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Maria A. A. de Macedo - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Oliver Tolle - Universidade de São Paulo/USP, Brasil

Renato Ambrósio - Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Rodrigo Pinto de Brito - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/UFRRJ, Brasil

Romero Junior Venancio Silva - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Rosana Baptista dos Santos - Univ. Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri/UFVJM, Brasil

Tarik de Athayde Prata - Universidade Federal de Pernambuco/UFPE, Brasil

Ulisses Neves Rafael - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Vladimir de Oliva Mota - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Waltencir Alves de Oliveira - Universidade federal do Paraná/UFPR, Brasil

William John Dominik - University of Otago, New Zealand (Professor Emeritus), Nova Zelândia

EDITORIA

Jacqueline Ramos - Editora Chefe

Fernando de Mendonça - Editor Adjunto

Luiz Rosalvo Costa - Editor Adjunto

Luciene Lages Silva - Editor Gerente

REVISOR DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

William Dominik (língua inglesa)

PREPARAÇÃO DOS ORIGINAIS

Jacqueline Ramos

Fernando de Mendonça

PROJETO GRÁFICO e DIAGRAMAÇÃO

Julio Gomes de Siqueira

IMAGEM DA CAPA: Night in Saint-Cloud, por Edvard Münch, 1890.

Este trabalho está distribuído sob uma Licença Creative Commons
Atribuição - Compartilha Igual - 4.0 Internacional.


Sumário

Apresentação

Fernando de Mendonça

Apresentação

A pintura que encapa esta nova edição d’A Palo Seco, mais do que uma tentativa de representação ao nosso atual sumário, denota um estado de síntese para com a realidade que assolou o mundo neste ano de 2020. Night in Saint-Cloud, tela datada de 1890, concentra uma situação de espírito vivenciada pelo expressionista Edvard Münch, naquele exato período e em relação a um contexto de isolamento que também era causado por uma crise na saúde europeia. Melhor contextualizando, desde 1889, Münch encontra-se em Paris, apoiado por uma bolsa do estado norueguês, vendo-se obrigado a sair da cidade, quando, em dezembro daquele ano, estourou um surto de cólera. Seu deslocamento para a comuna de Saint-Cloud imediatamente passa a ser retratado em uma série de obras que trazem ao primeiro plano uma atmosfera de confinamento, com personagens encerrados em interiores de janelas fechadas e opressoras, sendo esta que escolhemos para abrir nossa edição, a primeira tela da referida fase de Münch e a mais representativa junto às intenções deste periódico.

Dar corpo ao 13º volume de nossos escritos, em meio a uma crise mundial de saúde e a uma brutal adaptação de rotinas e interações (com a sociedade, com o conhecimento, com a compreensão de espaço e tempo), coloca-nos em posição especular à que se retrata no centro da pintura de Münch. No personagem que absorve a noite e se torna sombra de si mesmo, somos também provocados – seja pela COVID-19 ou por direcionamentos políticos em vigor que insistem em nos isolar, a nós, que insistimos pela filosofia e pela literatura – a dialogar com uma humanidade contemporânea encavernada, condenada às sombras, mas jamais desistente em suas motivações de continuidade. Se também continuamos nossos trabalhos em meio a tão conturbado cenário, fazemo-lo por convicção de os dias e as noites de 2020 prosseguirem confirmando a necessidade humana da introspecção, do autoquestionamento e de sua autorrepresentação. Muito se tem dito sobre o valor das artes nestes tempos, das estéticas midiáticas subsistindo não apenas como refúgio, mas como ponte ao Outro, renovando valores e usos do pensamento. Em certa medida, não houve no mundo quem não provasse, neste ano, de uma inclinação filosófica, seja pela manutenção de perguntas inesgotáveis, seja pela consciência e o desafio de se reencontrar em meio a rompimentos irreversíveis.

Na duplicação dos espaços que emana em torno desta melancólica figura do pensador, como aparece atualizada em Münch, reencontramos igualmente os nossos propósitos. Assim como a janela parece crucificar o espaço, materializando ecos de uma encruzilhada existencial, o GeFeLit – Grupo de Filosofia e Literatura, também localiza no encontro de dois pensares, o filosófico e o literário, uma necessária interseção para continuar ressignificando as possíveis maneiras de ver e se relacionar com o mundo. Com mais de uma década de atividades e uma contínua renovação de seus integrantes, este grupo mantém os impulsos que o fundaram, entendendo que na encruzilhada onde se encontram a Filosofia e a Literatura também se colocam formulações que ajudam, não apenas a enxergar o outro lado (o de fora ou de dentro), mas a tratar espíritos adoecidos, como na emblemática imagem de uma ‘homeopatia da angústia’, receitada pelo fenomenólogo Gaston Bachelard, em sua Poética do Devaneio (1961).

Ainda que não se trate de uma edição temática, não por acaso, vários dos textos deste volume recorrem aos imaginários da solidão. Por meio de personagens e narrativas, ou mesmo por uma investigação primeva do ato filosófico, este que coloca o ser em diálogo com silêncios que dizem muito, uma espécie de linearidade se erige na conexão dos onze artigos e das duas traduções que dão forma a presente coletânea. No que importa uma enumeração de todas as valiosas contribuições aqui perpetuadas, como dispomos a seguir:

No artigo que abre nossas leituras, Paulo Junior Batista Lauxen investiga “A Atitude Filosófica de Walden, de Thoreau”, partindo do quadro conceitual de Pierre Hadot para concluir que, em Thoreau, a literatura se faz filosofia, pois a obra Walden é ao mesmo tempo um discurso filosófico e um projeto poético que exercita espiritualmente o seu autor a viver melhor e em direção aos outros. O paradoxo entre o isolamento poético de Thoreau e sua abertura para o mundo natural recupera princípios que jamais deveriam se dissociar da práxis filosófica, desde a Antiguidade direcionada para a vida prática e a convivência em sociedade. O aprimoramento de espírito trazido pela postura introspectiva revela-se em sua urgência de resgate, respondendo inclusive aos sintomas do mundo pandêmico que inicialmente evocamos e reposicionando a convergência entre Filosofia e Literatura como uma potência do bem viver, do que é ser realmente saudável.

Seguem-se, então, dois artigos que exploram as ressonâncias de palavras originárias, fundadoras, seja no mais tradicionalmente reconhecido contexto grego, onde Rodrigo Rizerio de Almeida nos orienta “Para uma Ontologia Poética ou Poética Ontológica: a unidade temporal dos estilos”; como no ainda pouco desbravado, dentro de um diálogo com as filosofias ocidentais, contexto africano, onde Tiganá Santana Neves Santos aborda as “Sentenças Proverbiais Africanas: a um só tempo, literatura, filosofia e acontecimento”. Trata-se de dois textos que, cada qual a sua maneira, trazem à tona o caráter filosófico da palavra poética dentro de dimensões ontológicas embasadas em tradições milenares. Como bem lembra o último texto enumerado, não se pretende aqui discussões de ordem ‘etnofilosófica’, mas problematizações em torno de uma expansão dos cânones, compreendendo-se que o pensamento humano transcende fronteiras e demarcações coloniais.

Nesse sentido, os três artigos desta edição que discutem um corpus localizado na literatura brasileira e avançam nas contribuições analíticas de textos literários por meio de perspectivas filosóficas, reconstruindo uma cronologia nacional que transita entre os séculos XIX e XX, vêm na sequência; todos eles também partilham de um interesse pelo poder instaurador da palavra, capaz de redimensionar costumes e preceitos historicamente entranhados nas estruturas sociais. Os estudos machadianos de Iasmim Santos Ferreira, com sua reflexão metapoética “Sobre a Malévola Faculdade: a palavra”, tocam em pontos cruciais para que repensemos nossa responsabilidade diante dos usos da linguagem em meio a agudas transformações nos mecanismos informativos. Por sua vez, Fernando Pisoni Zanaga, em “Poder-saber e a Cor: as crônicas de Lima Barreto e os discursos racista-científicos no Brasil do início do século XX”, também denuncia os riscos dos discursos, inclusive filosóficos e/ou literários, quando estes não confrontam a manutenção de intolerâncias e preconceitos que se materializam por meio da palavra. Ambos os textos advogam uma necessária tomada de consciência que bem orienta ao cuidado com a linguagem, ainda mais se considerarmos a atual retomada mundial de perspectivas fascistas e autoritárias. Já, em “O Habitus Bíblico de Graciliano Ramos”, Cosme Rogério Ferreira desenvolve uma abordagem comparatista à mais expressiva produção romanesca graciliânica, toda ela pautada por uma angustiada solidão que também não se pacifica com as crescentes injustiças do mundo. Os intertextos analisados junto à literatura bíblica na obra de um autor ateu, redirecionam o sumário desta edição aos desdobramentos do isolamento, assim como a busca pela palavra que nos religa ao sagrado.

Em seguida, alinham-se mais três artigos pautados por um corpus que toca às margens do existencialismo fantástico: “O Devaneio Poético em  A casa de Asterion e A Escrita de Deus: reflexões filosóficas na solidão de um cárcere”, em que Clarissa Loureiro Marinho Barbosa e Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz ofertam interpretações fenomenológicas à inesgotável obra borgeana; “Simulacro, Desejo e Ética: aproximações entre Slavoj Zizek e A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares”, em que Isabela Cim Fabricio de Melo igualmente redireciona luzes a este marco da literatura latino-americana dentro de um contexto crítico próximo ao psicanalítico; e “A Construção Narrativa em Abismo, em O Lobo da Estepe”, em que Geyvson Cardoso Varjão e Fernando de Mendonça propõem uma leitura baseada na técnica da mise en abyme e em suas múltiplas variações especulares, diante de um dos mais emblemáticos romances de Hermann Hesse.

Os últimos dois textos da seção de artigos voltam-se para momentos e movimentos do pensamento estético/histórico, reforçando a necessidade de áreas fundamentais às Humanidades, como a Educação e o Direito, também não se afastarem da consciência filosófica. Christine Arndt de Santana e Nívea Maria Dias, em “Teatro, Filosofia e Educação: o discurso sobre a poesia dramática”, alicerçam os pensamentos na obra poética de Diderot para refletir as possibilidades de alcance junto a uma felicidade coletiva, sábia e virtuosa, que necessariamente demanda exercícios de ordem estética. Também preocupado com as formas de constituição da intelectualidade na vida social, Jean Felipe de Assis, em “Hegel e a Ironia Romântica: racionalidade, direito e saber”, desenvolve uma série de considerações aos Cursos de Estética hegelianos para identificar como a Filosofia contribui na prática científica, histórica e política de uma sociedade.

A seção bilíngue de traduções que encerra este volume, com duas versões para o português de textos originários de Galeno e Kant, outrora inéditos em nosso idioma, não deixa de também guardar relações com a linearidade lógica que ordena toda a edição. O texto “Que o Melhor Médico é Também Filósofo”, de Cláudio Galeno, com tradução e apresentação de Rafael Carvalho, aos moldes de tantas saudáveis exortações filosóficas diluídas em toda a revista, desde aquele primeiro artigo sobre Thoreau, curiosamente, também elogia ‘o desprezo pelas riquezas e o cultivo da moderação’. De outra parte, “Sobre o Fogo”, oriundo da fase pré-críticas de Immanuel Kant, com tradução e apresentação de Klaus Denecke Rabello, apesar de apresentar um caráter mais eminentemente científico, não deixa de nos devolver um elemento natural (o fogo) que é miticamente associado à vida humana.

Com o intuito de não deixar a chama apagar, nós d’A Palo Seco, concluímos assim mais uma edição que já guardamos como memorável, especialmente diante da época que atravessamos. Somos profundamente gratos a cada colaboração que deu forma a este número, de articulistas a tradutores, de pareceristas a colaborações técnicas em revisão e diagramação. Encerramos o ano de 2020, dedicando este volume à memória de cada pessoa vitimada pela COVID-19, para além de nossos círculos de amizades e parentescos, seja junto a cada integrante do grupo GeFeLiT, como a cada leitor(a) da revista. Para que as nossas vidas e as nossas mortes não sejam reduzidas a números, mas que se resgatem em seu valor singular de experiência, nos pensamentos e nas narrativas que nos formam e que nos confirmam seres dotados de subjetividade, desejamos uma excelente e inquietante leitura.

Fernando de Mendonça

5
Artigos

A “atitude” filosófica de Walden, de Thoreau

Paulo Junior Batista Lauxen

UNINTER/SC

RESUMO: O presente artigo investiga a possibilidade de ler a obra Walden, de Henry D. Thoreau (1817 - 1862), segundo o quadro conceitual desenvolvido por Pierre Hadot (1922 - 2010), em O que é a filosofia antiga? Debruçando-se sobre os textos filosóficos da Antiguidade, Hadot revela que a filosofia se define mais como um modo de vida do que como um discurso filosófico. O propósito desta atividade é “tornar-se melhor” mediante a prática do que ele chama de exercícios espirituais. Não obstante, a filosofia acaba por se distanciar deste caráter marcadamente prático em função de um complexo processo histórico que se reduz a uma atividade exclusivamente discursiva. Hadot localiza ao longo da história figuras que reverberam a tradição antiga de filosofia, como Thoreau, por exemplo. Partindo de Hadot, concluiremos que em Thoreau a literatura se faz filosofia: Walden é ao mesmo tempo um discurso filosófico e um exercício espiritual de seu autor, estando estreitamente vinculado à sua vida filosófica, além de ser recurso “psicagógico” de direção espiritual dos outros.
PALAVRAS-CHAVE: Exercícios Espirituais. Filosofia Antiga. Literatura. Sabedoria.

ABSTRACT: This article investigates the possibility of reading the work Walden by Henry D. Thoreau (1817-1862) according to the conceptual framework developed by Pierre Hadot (1922-2010) in What Is Ancient Philosophy? Looking at the philosophical texts of antiquity, Hadot reveals that philosophy is defined more as a way of life than as a philosophical discourse. The purpose of this activity is to “become better” by practicing what he calls spiritual exercises. Nevertheless, philosophy ends up distancing itself from this markedly practical character due to a complex historical process and being reduced to an exclusively discursive activity. Hadot locates throughout history figures that reverberate the ancient tradition of philosophy, for example, Thoreau. Starting from Hadot, we conclude that in Thoreau literature becomes philosophy: Walden is, at the same time, a philosophical discourse and a spiritual exercise of its author, being closely linked to his philosophical life, in addition to being a “psychagogical” resource for the spiritual direction of others.
KEYWORDS: Spiritual Exercises. Ancient Philosophy. Literature. Wisdom.

10

Para uma ontologia poética ou poética ontológica: a unidade temporal dos estilos

Rodrigo Rizerio de Almeida

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – IFBA

RESUMO: Em Conceitos fundamentais da poética, Emil Staiger defende a intimidade entre poética e ontologia, sugerindo que a poética reflete, na unidade de seus gêneros, virtualidades fundamentais da existência humana. Por outro lado, a unidade dos estilos poéticos se fundamenta para o autor na unidade temporal da existência, tal como Heidegger a interpretou. Tendo em vista isso, o artigo a seguir explicita a unidade temporal da existência, enfatizando o tempo como o sentido do cuidado (Sorge), para em seguida explorar as sugestões de Staiger de que cada um dos estilos poéticos corresponde a ekstases temporais. Se o tempo originário é finito e não serial, marcado por uma unidade essencial a fundamentar a unidade do todo estrutural do cuidado, a unidade temporal dos estilos poéticos nada mais seria, por sua vez, senão um modo poético de explicitar a mesma totalidade. A unidade temporal da existência se pode ver assim também poeticamente.
Palavras-chave: Poética. Tempo. Existência.

ABSTRACT: In Fundamental Concepts of the Poetic, Emil Staiger defends the intimacy between poetic and ontology, suggesting that poetic reflects, in the unity of its genres, fundamental virtualities of human existence. On the other hand, the unity of poetics styles is based for the author on the temporal unity of existence, as Heidegger interpreted it. With this in mind, the following article explains the temporal unit of existence, emphasizing time as the sense of care (Sorge) and then explores Staiger’s suggestions that each of the poetic styles corresponds to temporal ekstases. If original time is finite and not serial, marked by an essential unity to support the unity of the structural whole of thought, the temporal unity of poetics styles would, in turn, be nothing but a poetic way of making explicit the same totality. The temporal unit of existence can also be seen poetically.
Keywords: Poetics. Time. Existence.

25

Sentenças proverbiais africanas: a um só tempo, literatura, filosofia e acontecimento

Tiganá Santana

Universidade Federal da Bahia – UFBA

RESUMO: Este artigo traz à tona o lugar específico e relevante do que nele se cunha como sentença em linguagem proverbial – diferentemente, de uma ideia euro-ocidental de provérbio – para civilizações africanas, a exemplo da Bantu-Kongo, Changana e Yoruba. A complexidade semiótica, filosófica e estético-inscricional de tal expressão (associada a corporalidades coletivas e singulares) está também na dimensão do acontecimento a mover-se entre temporalidades, o conhecido e o desconhecido. Linguagem, nesse caso, faz-se, antes de tudo, comunicação entre frequências.
PALAVRAS-CHAVE: Sentenças em linguagem proverbial. Provérbio. Civilizações africanas.

ABSTRACT: This article brings up the specific and relevant linguistic space of what is called here a sentence in proverbial language – unlike a Euro-Western idea of a proverb – for African civilizations, such as Bantu-Kongo, Changana and Yoruba. The semiotic, philosophical and aesthetic-inscriptional complexity of such an expression (associated with collective and singular corporealities) occurs within the dimension of a linguistic event that is in the process of moving between temporalities, the known and the unknown. Language, in this case, is, first of all, communication between frequencies.
KEYWORDS: Sentences in proverbial language. Proverb. African civilizations.

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Sobre a malévola faculdade: a palavra

Iasmim Santos Ferreira

Universidade Federal de Sergipe – UFS

RESUMO: Este trabalho tem por objetivo se debruçar sobre a crônica “A reforma pelo jornal”, do escritor Machado de Assis, sob a perspectiva da linguagem poética. Para tanto, amparamo-nos nos estudos teóricos de Benedito Nunes (1989), Octavio Paz (2013) e Theodor Adorno (1983). Machado defende a palavra poética veiculada pelo jornal, o meio mais difuso da época, engendrando discussões sobre a linguagem, o fazer poético e o acesso à literatura, sendo assim uma crônica que versa sobre a “malévola faculdade”: a palavra, portanto, metapoética.
PALAVRAS-CHAVE: Crônica machadiana. Linguagem. Metapoética.

ABSTRACT: The aim of this article is to analyse the story “A reforma pelo jornal” by Machado de Assis from the perspective of poetic language. For this purpose, we rely on the theoretical studies of Benedito Nunes (1989), Octavio Paz (2013), and Theodor Adorno (1983). Machado defends the poetic tone conveyed by the newspaper, the most diffuse medium of that period, which engenders discussions about language, the poetic practice, and access to literature, thus being a story that deals with the “malevolent faculty”, that is, metapoetics.
KEYWORDS: Machadian chronic. Language. Metapoetic

51

Poder-saber e cor: as crônicas de Lima Barreto e os discursos racista-científicos no Brasil do início do século XX

Fernando Zanaga

Universidade Estadual de Campinas – Unicamp

RESUMO: Michel Foucault (2010) identifica que, durante o século XIX, emerge na Europa o racismo de Estado e moderno, pautado em revigorados discursos racista-científicos. O Brasil, recém-saído do regime escravista e do sistema monárquico, apresenta uma nova elite que recorre às ideias e práticas europeias buscando modernizar o país.  Dentre os discursos europeus, que circulam e reverberam na sociedade brasileira da Primeira República, estão os discursos racista-científicos. A partir dos conceitos de poder-saber, da relação entre discurso científico e verdade elaborados por Foucault (2014a, 2014b, 2019), este artigo pretende identificar as estratégias argumentativas que o literato negro Lima Barreto empregou em suas crônicas para combater e desacreditar os discursos racistas.
PALAVRAS-CHAVE: Michel Foucault. Lima Barreto. Poder. Saber. Racismo.

ABSTRACT: Michel Foucault (2010) identifies the rise of the state and modern racism in nineteenth-century Europe, which was based on revived scientific racist discourses. Since Brazil had recently abolished slavery and the monarchy had been replaced by a republican regime, a new political elite was attempting to conduct a modernization process by transplanting European practices and ideas. The theories of scientific racism were among the European discourses that spread within the Brazilian society. Based on the concepts of power-knowledge and the relation between scientific discourse and truth created by Foucault (2014a, 2014b, 2019), this article intends to identify the argumentative strategies used in Lima Barreto’s chronicles in order to debunk the racist discourses.
KEYWORDS: Michel Foucault. Lima Barreto. Power. Knowledge. Racism.

66

O habitus bíblico na construção romanesca de Graciliano Ramos

Cosme Rogério Ferreira

Instituto Federal de Alagoas – IFAL

RESUMO: Este trabalho tem por objeto as relações dialógicas entre textos graciliânicos e textos bíblicos, investigando de que modo o estudo do livro sagrado do cristianismo influenciou a formação de um intelectual descrente, considerado um dos mais importantes escritores brasileiros. Apesar de se declarar ateu desde a juventude, é conhecida a irônica predileção de Graciliano Ramos pela leitura da Bíblia, bem como é notável a referenciação a passagens bíblicas em sua obra. Por meio de uma análise ancorada na perspectiva sociológica de Bourdieu (2003), utilizamos o conceito de habitus bíblico para nos referirmos às disposições consciente ou inconscientemente incorporadas pelo autor no processo de construção de seu monumento literário.
PALAVRAS-CHAVE: Bíblia. Habitus. Graciliano Ramos.

ABSTRACT: The purpose of this article is to examine the dialogical relationship between Graciliano Ramos’ texts and biblical texts by considering how the study of the sacred book of Christianity influenced the formation of an atheistic intellectual who is considered to be one of the most important Brazilian writers. Although he declared himself to be an atheist from the time of his youth, Graciliano Ramos’ ironic predilection for reading the Bible is well known, as are the references to biblical passages in his work. Based upon an analysis founded on the sociological perspective of Bourdieu (2003), I employ the concept of biblical habitus to refer to the phrases consciously or unconsciously incorporated by Ramos in the process of constructing his literary monument.
KEYWORDS: Bible. Habitus. Graciliano Ramos.

81

O devaneio poético em A casa de Asterion e A escrita de Deus: reflexões filosóficas na solidão de um cárcere

Clarissa Loureiro Marinho Barbosa | Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz

Universidade de Pernambuco – UPE | Universidade Federal de Sergipe – UFS

RESUMO: Este trabalho se propõe a estabelecer um estudo comparativo entre os contos A escrita de Deus e A casa de Asterion, a fim de se discutir como, em ambos, os protagonistas da narrativa vivenciam devaneios poéticos proporcionadores de reflexões filosóficas sobre os espaços que habitam. A intenção é que se compreenda como nesses textos borgeanos os personagens principais criam imagens poéticas que os levam a suavizar os lugares de opressão e de solidão em que se encontram. Para tanto, este trabalho fundamenta-se nas ideias de Gaston Bachelard sobre devaneio (1996) e espaço poético (1993), além da visão de Sandra Nitrini (2015) sobre literatura comparada e de Tzvetan Todorov (1975) sobre literatura fantástica. Todas essas bases teóricas corroboram para que se compreenda como esses contos de Jorge Luís Borges fornecem imagens poéticas sobre a infinitude, as quais sejam possibilitadoras de reflexões poéticas sobre as possíveis relações existentes entre o sujeito e o Cosmo.
PALAVRAS-CHAVE: Devaneio. Espaço poético. Jorge Luís Borges. Infinitude.

ABSTRACT: This work proposes to establish a comparative study between the tales The Writing of God and The House of Asterion in order to discuss how in both works the protagonists of the narrative experience poetic daydreams that provide philosophical reflections on the spaces where they live. The intention is to understand how in these Borgean texts the main characters create poetic images that lead them to mitigate the harshness of the the places of oppression and loneliness in which they find themselves. For this purpose, this study is based on the ideas of Gaston Bachelard on reverie (1996) and poetic space (1993), Sandra Nitrini’s (2015) view on comparative literature, and Tzvetan Todorov (1975) on fantastic literature. All of these theoretical foundations corroborate how these stories by Jorge Luís Borges provide poetic images about infinity, which enable poetic reflections on the possible relationships between the subject and the cosmos.
KEYWORDS: Daydream. Poetic Space. Jorge Luís Borges. Infinity.

98

Simulacro, desejo e ética: aproximações entre Slavoj Zizek e A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares

Isabela Cim Fabricio de Melo

Universidade Federal do Paraná – UFPR

RESUMO: Este artigo tem como objetivo expor criticamente algumas reflexões e possíveis articulações entre a obra A Invenção de Morel, publicada originalmente em 1940 e escrita pelo argentino Adolfo Bioy Casares, e o trato de conceitos psicanalíticos como ética, desejo do Outro e identificação simbólica e imaginária, pelo filósofo Slavoj Zizek. A concepção de Morel e do narrador das projeções imagéticas como uma vida ideal, remete em Zizek (1992) à constituição psíquica do sujeito em sua falha na comunicação com o Outro. A determinação do narrador, por sua vez, em juntar-se à sua amada no mundo dos simulacros, mesmo ao custo da própria vida, encaminha para uma consideração de proximidade à ética do desejo como pensada por Lacan (2008), em sua leitura da Antígona. O estudo das duas obras principais, o livro escrito por Casares e o capítulo V de Eles não sabem o que fazem, de Zizek (1992), foi acompanhado de outros teóricos da psicanálise e da literatura, resultando em uma articulação teórica que representa e agrega ao entendimento dos conceitos propostos, ao mesmo tempo em que abre espaço para leituras novas do texto literário, para além do trabalho de crítica.
PALAVRAS CHAVE: Adolfo Bioy Casares. Slavoj Zizek. Desejo do Outro. Identificação.

RESUME: This article aims to critically examine some reflections and possible articulations in common between the book The Invention of Morel, composed by the Argentinian Adolfo Bioy Casares and published in 1940, and the use of psychoanalytic concepts such as ethics, desire of the ‘Other’, and symbolic and imaginary identification by the philosopher Slavoj Zizek. Both Morel’s and the narrator’s conceptions of imagistic projections as ideal life refer to what Zizek (1992) remarks about the psychic constitution of the subject who is unable to communicate with the ‘Other’. The narrator’s resolve, on the other hand, to join his beloved in the world of simulation, even at the cost of his own life, opens way for a consideration of its proximity to the ethics of desire, as proposed by Lacan (2008) in his reading of Antigone. The study of two main works, the book written by Casares and chapter V of For They Know Not What They Do by Zizek (1992), is accompanied by other thinkers of psychoanalysis and literature, which not only results in a theoretical articular that represents and adds to the understanding of the concepts proposed but also opens up space for new readings of the literary text beyond the work of the critic.
KEYWORDS: Adolfo Bioy Casares. Slavoj Zizek. Desire of the Other. Identification.

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A construção narrativa em abismo, em O lobo da estepe

Geyvson Cardoso Varjão | Fernando de Mendonça

Universidade Federal de Sergipe – UFS | Universidade Federal de Sergipe – UFS

RESUMO: Em O Lobo da Estepe (1927), o ato de narrar traduz ao mesmo tempo uma metamorfose particular de escrita e um ato reflexivo de consciência. Todo o romance de Hermann Hesse é marcado pelo redobramento do sujeito e da própria narrativa escritural, prefigurando uma estrutura mise en abyme. Por meio de leituras que nos revelem esse tipo de engrenagem narrativa (GIDE, 1951. DÄLLENBACH, 1979. ECO, 1989), propomos uma reflexão sobre a construção em abismo do romance O Lobo da Estepe, compreendendo a complexidade e a vertigem formal como um caminho para a tomada de consciência e o olhar filosófico sobre a existência (SARTRE, 2005).
PALAVRAS-CHAVE: Literatura e Filosofia. Hermann Hesse. Mise en Abyme. Especularidade.

ABSTRACT: In Steppenwolf (1927), the act of narrating entails both a particular metamorphosis of writing and a reflexive act of conscience. Hermann Hesse’s entire novel is marked by the redoubling of the subject and the scriptural narrative, which prefigures a mise en abyme structure. Through readings that reveal this type of narrative mechanics (Gide, 1951. Dāllenbach, 1979. Eco, 1989), we present an analysis of the construction of the abyss in the novel Steppenwolf by understanding complexity and formal vertigo as a path to consciousness and a philosophical outlook on existence (Sartre, 2005).
KEYWORDS: Literature and Philosophy. Hermann Hesse. Mise en Abyme. Specularity.

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Teatro, filosofia e educação: o discurso sobre a poesia dramática

Christine Arndt de Santana | Nívea Maria Dias

Universidade Federal de Sergipe – UFS | Universidade Federal de Sergipe – UFS

RESUMO: O presente artigo é resultado de uma pesquisa de Iniciação Científica vinculada ao PIBIC-UFS, realizada entre os anos de 2019-2020. O objetivo da pesquisa pretendeu demonstrar a relação necessária entre o Teatro e a Educação no pensamento diderotiano, tendo em tela a Filosofia desse autor para que, dessa maneira, fosse possível analisar, à luz dos preceitos estabelecidos no escrito Plano de uma Universidade, o Discurso sobre a poesia dramática, segunda poética do fazer teatral escrita por Diderot; como também compreender o motivo que levou o filósofo aqui analisado a escrever poéticas que revolucionaram o fazer teatral. A metodologia utilizada foi a da pesquisa bibliográfica, a partir da perspectiva interpretativa-hermenêutica que possibilitou o alcance da seguinte conclusão quanto à relação Filosofia, Teatro e Educação: a dramaturgia, assim como sua poética, exercendo uma função social, representa a vida cotidiana em sociedade, fazendo com que seja despertado no espectador a reflexão sobre o mundo que o cerca, permitindo-o ponderar suas ações e agir de maneira reflexiva. Em termos diderotianos, a poesia dramática exige uma configuração tanto estética quanto moral para que se possa forjar, via educação, o ser humano esclarecido (sábio) e virtuoso (bom), único capaz de ser feliz, uma vez que colabora para o alcance da felicidade coletiva.
PALAVRAS-CHAVE: Diderot. Filosofia. Poética. Teatro. Educação.

ABSTRACT: This article is the result of a Scientific Initiation research project associated with PIBIC-UFS that was carried out during the years 2019-2020. The objective of the research was to demonstrate the necessary relationship between Theater and Education in Diderotian thinking by taking into account the philosophy of this author. Thus it was possible not only to analyse, in light of the precepts established in the Plan of a University and the Discourse on Dramatic Poetry, the second poetics of theatrical creation composed by Diderot but also to understand the reason that led Diderot to conceptualize this revolutionary poetics. The methodology used included examining bibliographic research from a interpretative-hermeneutic perspective, which made it possible to reach the following conclusions regarding the relationship between philosophy, theatre, and education: dramaturgy and its poetics exercise a social function and represent everyday life in society, which causes viewers to reflect on the world around them and allows them to ponder their actions and act in a reflective manner. In Diderotian terms, dramatic poetry requires both an aesthetic and moral configuration in order to forge, through education, the enlightened (wise) and virtuous (good) human being, capable alone of being happy, since each one alone contributes to the achievement of collective happiness.
KEYWORDS: Diderot. Philosophy. Poetic. Theater. Education.

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Hegel e a ironia romântica: racionalidade, direito e saber

Jean Felipe de Assis

Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ

RESUMO: Avaliam-se as posições de Hegel sobre a Ironia Romântica em passagens seletas de seu corpus, especificamente seus estudos sobre o poético nos Cursos de Estética. Diante da multiplicidade de considerações e interpretações dos movimentos românticos, as observações desse filósofo contribuem para uma avaliação das propostas científicas, históricas e políticas de um marcante período intelectual em solos germânicos. Em contrapartida às ideias de F. Schlegel e Novalis, Hegel enfatiza a utilização socrática do conceito de ironia, enquanto as tendências classificadas como românticas apontam antíteses impossíveis de serem superadas em promessas racionais irrealizáveis. Em um modo introdutório de discutir o problema do poético em um diálogo entre Hegel e os românticos, opta-se por estudar a crítica hegeliana à ironia consagrada nos textos de Friedrich Schlegel. Para Hegel, o desvelar do Geist e a busca por auto-consciência efetivam uma realização racional mediante transformações históricas e formas de constituição da intelectualidade e da vida social.
PALAVRAS-CHAVE: Hegel. Ironia. Romantismo. F. Schlegel.

ABSTRACT: Hegel’s positions on Romantic Irony are evaluated in selected passages of his corpus, specifically his studies on the poetic in Aesthetics Courses. Taking into account the multiplicity of considerations and interpretations of romantic movements, these philosophical inquiries contribute to an evaluation of the scientific, historical and political proposals during a remarkable intellectual period in Germanic territories. In contrast to the ideas of F. Schlegel and Novalis, Hegel emphasizes the Socratic use of the concept of irony, while trends classified as romantic exhibit antitheses that are impossible to be overcome through rational thinking. As an introductory way of discussing the poetic in a dialogue between Hegel and the romantics, this essay opts to study the Hegelian critique of irony present in Friedrich Schlegel’s texts. For Hegel the unveiling of Geist and the search for self-awareness affords the possibility of a rational realization through historical transformations and forms that permeate intellectuality and social life.
KEYWORDS: Hegel. Irony. Romanticism. F. Schlegel.

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Traduções

QUE O MELHOR MÉDICO É TAMBÉM FILÓSOFO, de Galeno

Rafael Carvalho

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG/CAPES

Sabe-se sobre Galeno a partir dos seus próprios escritos. Neles, as entradas autobiográficas são abundantes e, no geral, muito do que ele conta está em primeira pessoa. Galeno nasceu numa das maiores, dentre as ricas e prósperas cidades do mundo antigo, Pérgamo, na costa jônica da Ásia menor (atual Bergama, Turquia), no ano 129 d. C. Seu pai, Nícon, muito presente nos seus escritos, era proprietário de terra e arquiteto de profissão, e garantiu que ele tivesse a melhor educação possível. Galeno conta que, com quatorze anos, esteve em contato com os principais adeptos das escolas de filosofia em Pérgamo, escolhidos cuidadosamente pelo pai; conta também que viria a se tornar médico por causa de um sonho premonitório que o pai teve quando ele tinha dezessete anos...


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Sobre o Fogo, de Immanuel Kant

Klaus Denecke Rabello

Pontifícia Universidade Católica – PUC/Rio

Iná mo jubá ô ô.

Fosse Immanuel Kant fluente em yorubá, utilizar-se-ia desta expressão para tratar o elemento que acompanhou toda sua obra: o fogo – na forma de Phlogiston, Wärmestoff e Feuerstoff, também equiparado por Kant ao éter, recebe menções em escritos de diferentes épocas, como o De igne, texto de 1755 aqui traduzido – o primeiro em que tal conceito aparece –, o Menschenrasse, de 1785, e um vasto material de seu Opus postumum, no qual o éter é elemento fundamental daquilo que Kant mesmo chamou de sua obra principal (Hauptwerk): a passagem entre as áreas da filosofia crítica separadas pela crítica da razão. É como o tradutor russo da dissertação De igne, Lugovoy, indica: é no De igne que Kant origina seu conceito de éter como matéria elástica do fogo, calor e luz, contendo as forças de atração e repulsão. Estas mesmas forças são o resultante na busca de Kant pela origem do universo em sua Teoria do Céu, datada do mesmo ano de 1755. Lugovoy identifica na dissertação Sobre o fogo a origem do conceito do éter, a conecta com a Monadologia física, de 1756, e aponta à hipótese do potencial heurístico do Sobre o fogo para a elucidação de proposições do Opus postumum...


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