A Palo Seco, N. 7, 2015 - Escritos de Filosofia e Literatura 


A Palo Seco - N.11

A Palo Seco 2019
chamada para publicação

A partir desse ano de 2019,
A Palo Seco adotou o sistema de submissão em fluxo contínuo. Para o número de 2019 serão avaliados os artigos e traduções encaminhados até o dia 30 de junho de 2019.

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 7, N. 7, 2015
Escritos de Filosofia e Literatura


CONSELHO EDITORIAL

Camille Dumoulié

Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz

Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Celina Figueiredo Lages

Universidade Estadual de Minas Gerais/UEMG, Brasil

Fabian Jorge Piñeyro

Universidade Pio Décimo/PIOX/Aracaju, Brasil

Jacqueline Ramos

Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Jean-Claude Laborie

Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

José Amarante Santos Sobrinho

Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Leonor Demétrio da Silva

Exam. DELE-Instituto Cervantes/SE, Brasil

Lúcia Maria de Assis

Universidade Federal Fluminense/UFF, Brasil

Luciene Lages Silva

Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Maria A. A. de Macedo

Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Maria Roseneide Santana dos Santos

Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Oliver Tolle

Universidade de São Paulo/USP, Brasil

Renato Ambrósio

Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Romero Junior Venancio Silva

Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Tarik de Athayde Prata

Universidade Federal de Pernambuco/UFPE, Brasil

Ulisses Neves Rafael

Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Waltencir Alves de Oliveira

Universidade federal do Paraná/UFPR, Brasil

William John Dominik

University of Otago, New Zealand (Professor Emeritus), Nova Zelândia


EDITORIA

Luciene Lages Silva

Editora Chefe

Jacqueline Ramos

Editora Adjunta

Maria A. A. de Macedo

Editora Adjunta


PREPARAÇÃO DOS ORIGINAIS

Luciene Lages Silva

Jacqueline Ramos


CAPA e EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Julio Gomes de Siqueira


IMAGEM DA CAPA: Composition XIV, de Piet Mondrian


Sumário

Apresentação

Maria A. A. de Macedo

Caros leitores,

sob o sétimo ano e número, lançamos A Palo Seco em 2015, mantendo sua intenção de diálogo entre a literatura e a filosofia; diálogo este abafado pelos estudos autonomistas que cunharam o termo literariedade e a ele se restringiram, passando ao largo da vida e dos diversos conhecimentos movimentados na literatura - dentre eles, o seu duplo des(igual): a filosofia. Passados os tempos formalistas, os estudos da literatura recuperam seu espaço de acolhida, trabalho e recriação de conhecimentos.

São vários os temas que se pontilham ao longo deste número, alguns sutis e outros mais visíveis e urgentes, tais como aquele do gênio (artista) abordado em Faulker, e retornado no segundo artigo sob a perspectiva de Mill e sua manifestação em Wilde. Ainda em Faulkner, temos o tema da viagem, anti-heroica, rumo ao nada, que terá prosseguimento no artigo sobre Kundera – uma viagem de volta à casa, que revela a distância e desconhecimento no reencontro. A viagem de Suassuna em uma colheita de culturas e mundos diversos, transformados, recriados com a liberdade possibilitada pela literatura. Viagem homérica em regresso feliz, viagem de Aristófanes de encontro ao mundo (inicialmente) idílico. Por fim, dois artigos tratando de noções que nos frequentam e que já se apresentam na Antiguidade: a vida e sua relação entre sorte e ação humana.

O primeiro artigo desta edição, Darl, o homem de gênio em Faulkner, de Leila de Almeida Barros e Luciana Brito, elucida aspectos de Enquanto Agonizo sob a perspectiva da noção schopenhaueriana de gênio. Nas experimentações ficcionais, com sua multiplicidade de narradores, agarrados cada um às suas realidades imediatas e impensadas, destaca-se uma personagem, Darl, distanciada dessas realidades e, assim, apta a retirar o véu que acoberta a realidade última do conhecimento. As autoras fazem um paralelo entre ele e o homem de gênio, no entanto, se se estabelece essa aproximação,ela não se sustentará em toda a sua extensão. Se o distanciamento é o móvel para se atingira dimensão estética, segundo Schopenhauer, em Faulkner, esta será abortada frente ao contexto hostil e instável do sul dos Estados Unidos, espaço de Enquanto Agonizo, dilacerada entre um passado idílico e um presente deste afastado, e provocado pela modernização social. O conhecimento da personagem não é comunicável nesse contexto, como o é na noção de gênio de Schopenhauer, e retira-se em um solipsismo agonizante traduzido na incomunicabilidade da loucura.

Ainda sobre o distanciamento crítico como condição de alcance da dimensão estética, apresenta-se o segundo artigo. Desta vez, em uma abordagem comparatista que sublinha, a partir da noção de liberdade individual cunhada por John Stuart Mill, a independência e autonomia aos costumes como condições desse distanciamento. A ideia lançada por Mill, da qual a vida humana deve ser o objeto do esforço artístico, é objeto de um estudo comparativo de nosso segundo autor, Gustavo Hessmann Dalaqua. Em sua abordagem comparativa, ele observa a expansão e cumprimento do pensamento de Mill na noção de dandismode Oscar Wilde, no “cumprimento desviante do costume” (distanciamento crítico) cuja finalidade é a estetização da existência. Dalaqua constrói sua argumentação de Wilde leitor de Mill, observando as evidências textuais, como também as similaridades entre os conceitos de liberdade entre ambos.

Em Idílio e memória nos escritos kunderianos, Eliana Pires Rocha analisa nos romances de Milan Kundera, sob a perspectiva filosófica e política, a incidência da ideologia opressora de base stalinista da antiga Tchecoslováquia na construção da identidade dos indivíduos. Como ideologia, sua pretensão é a da universalidade, que, em sua forma aparentemente positiva – aparentemente, pois em um emprego instrumental – é produtora de um sentimento de idílio: espaço ilusoriamente livre de contradições suscitando a “lírica unitária da experiência, da comunidade” apaziguada. Em sua forma negativa, ela é incompatível com o livre pensamento do artista, e contrário à natureza ontológica do romance.A essas duas formas que adquirem a universalidade, e também aos fatos da história, Kundera opõe, lembra Rocha, a relatividade existencial de seus personagens, abalando a pretensa sociedade imune a controvérsias, embaladas pelo idílio. A autora, em dois romances do escritor tcheco, A brincadeira e A ignorância, observa a conjuntura histórico-política na qual se desenrola as narrativas, trata dos temas do exílio, da memória,e da impossibilidade desse idílio associado à ideologia – no caso, a stalinista. Contudo, pretende Kundera, que a história seja, em seus romances,compreendida e analisada, não como um dado factual,mas sim como circunstância existencialmente reveladora para o homem. Tempo e memória, nos romances em questão, são analisados por Rocha sob o viés filosófico, ao revelar a última em sua reelaboração e atualização constante do passado, a partir do presente.

Transpondo o destino da personagem de Faulkner, apresenta-se o quarto artigo, Quaderna, a mestiçaria brasileira encarnada, de Tereza Pereira do Carmo, no qual será evanescida a complexa dicotomia(?) ficção/realidade em uma feliz mestiçagem literária,como apresentada em O Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do Sangue do vai-e-volta de Ariano Suassuna.Empregando os recursos da poética clássica e medieval, com elementos espaciais, temporais e históricos contemporâneos, o autor constrói um reino encantado, com a personagem Quaderna,assegurando à literatura a livre experiência da aventura. Quaderna, assinala a autora, é um desdobramento do Suassuna professor, teórico e escritor. Através de suas metamorfoses evocadoras de heróis e mitos passados,a personagem assume a função de criador de uma alegre e híbrida ficção. Essa personagem trava um colóquio com a tradição literária (escritores, teóricos e autores), objetivando superá-la na edificação de uma obra intituladapor ele mesmo “Gênio da Raça”. Suassuna constrói, misturando a tradição literária antiga e medieval com a brasileira, um Édipo brasileiro. Em um ato mimético, a autora põe lado a lado a mestiçagem brasileira e a feitiçaria do cego decifrador edipiano, resultando desse processo de mistura o que a autora nomeia como “mestiçaria”.

O próximo artigo, Fortuna e tragédia – de Aristóteles para o cinema, de Cintia Sacramento Aquino traz o pensamento antigo, o aristotélico, para a nossa atualidade e em nossa forma artística por excelência, que é o cinema.A autora tem como ponto de partida o filme Match Point, escrito e dirigido por Woody Allen, para uma reflexão que, como bem lembra, remonta a uma reflexão filosófico-literária da Poética. Woody Allen lança de chofre, já no início do seu filme, a questão filosófica e moral formulada por seu personagem: “o homem que disse: ‘prefiro ter sorte a ser bom’, entendeu a vida profundamente. As pessoas temem ver como grande parte da vida depende da sorte. É assustador pensar que boa parte dela foge do nosso controle”. Essa provocação Woodyana, sublinha a autora está presente já na Antiguidade, na Ética a Nicômaco, de Aristóteles: “algumas pessoas acreditam que viver bem é precisamente a mesma coisa que ter uma vida afortunada”. A autora explora ainda, em sua discussão, a antítese antiga týkhe (fortuna) e tékhne (técnica, arte ou ciência humana) e a indagação sobre a determinação dos elementos dessa antítese para uma vida mais afortunada. Woody Allen recontextualiza essa antiga antítese, em nossa sociedade atual. No entanto, em sua mimese fílmica, ele solucionaa antítese com o apagamento de um de seus elementos, a tékhne.

Em Notas sobre a narrativa de viagem na literatura grega, Rosana Baptista dos Santos analisa a narrativa de viagem na literatura grega antiga, apontando similitudes e, sobretudo, diferenças delineadas na sua forma épica, em Odisseia, atribuída a Homero, e sob o viés cômico, em Paz e Aves de Aristófanes. A similitude, verificada pela autora, encontra-se na apresentação exemplar dos elementos constitutivos da viagem utópica, perfeita, de natureza exitosa. As narrativas de viagem de Aristófones distinguem-se, como é natural, por sua natureza cômica na representação do herói comum em comparação ao épico Ulisses.O comediógrafo explora um personagem comum, mas com manias, com liberdade de ação, convertida em liberdade de sonhar, de evadir-se pela fantasia e pela utopia – como o é aquela analisada por Mill e expressa literariamente por Suassuna. Os motivos da viagem, se na Odisseia é o retorno à origem e recuperação da identidade do herói como rei de Ítaca, Santos verifica ser, em Paz e Aves respectivamente, a resolução da guerra ateniense,e sua consequência na escassez de alimentos e a procura de uma terra feliz,inumana, como aquela dos pássaros. Os obstáculos da viagem não são experienciados de forma heroica em Aristófanes, mas traduzido sem questões pragmáticas e comezinhas.Enfim, a autora desse artigo objetivando apontar a transformação da épica homérica para a comédia de Aristófones, elenca as várias similitudes e distinções entre tais narrativas de viagens.

Encerrando a seção de artigos, contamos com a contribuição de Martin Reyes da Costa Silva com A decisão de Aquiles: intensidade dramática e narrativa na Patrocleia. A Patrocleia, marca do canto XVI da Ilíada, aborda os feitos e a morte de Pátroclo e o conflito entre as ações dos deuses e as dos homens no destino. Notamos que esse conflito, com distinções próprias, apresentou-se também no centro do debate do artigo anterior, sob as noções de fortuna ou sorte (ação dos deuses e ação humana). O Canto XVI tem como eixo a condição precária do humano frente aos deuses, que resulta no destino trágico dos heróis. No entanto, o destino ganha complexidade nesse Canto que, de acordo com Reyes, também mantém contínua a intensidade dramática na narrativa, dando a leitor a possibilidade de antever, na saga de Pátroclo, o quanto o seu destino e a sua morte entrelaçam os destinos e o fim funesto de Aquiles e Heitor, por mais divinos e grandiosos que se apresentem.

Terminada a seção de Artigos, prosseguimos com a de Tradução. Desde 2013, nossa revista contou com a publicação de artigos de colaboradores estrangeiros, com as devidas traduções, a fim de que leitores não familiarizados com uma língua estrangeira – no caso, a francesa – pudessem ter acessoa tais estudos. Em 2014, foi criada oficialmente a seção dedicada à tradução em nossa revista. É formato comum encontrarmos seções de traduções, sobretudo da área de Letras, que se dedicam, muitas vezes, não a tradução em si mesma, mas ao debate das traduções ou aos estudos tradutológicos. Optamos, no entanto, por reservar tal seção de A Palo Seco, para publicações não acerca de traduções, mas abrigar traduções diretas dos próprios textos filosóficos e literários, quer sejam traduções de textos ainda inéditos no Brasil ou novas traduções de textos já conhecidos.

Assim, contamos nessa seção com a contribuição de 5 tradutores. A primeira tradução, a Nemeia 7, de Píndaro,importante poeta lírico grego, na versão de Roosevelt Rocha,é a primeira tradução em língua portuguesa de que se tem notícia. Em Nemeias, Píndaro dedica suas odes aos atletas vitoriosos nos diversos jogos da antiga Grécia. O tradutor, em sua nota explicativa, levanta os problemas de interpretação desse texto de Píndaro. Sobre a Ode traduzida, Roosevelt alerta que Píndaro a dedicou a um jovem atleta ainda sem fama e por isso o conteúdo do poema apresenta vários mitos, talvez, com a finalidade de preencher a falta de vitória digna a ser mencionada numa canção de celebração, como o epinício.

A seguirencontramos duas traduções de obras de Fulgêncio, escritor latino de transição – final da Antiguidade tardia e início da Idade Média. Tais textos fazem parte de um projeto maior de tradução das obras completas do autor na Universidade Federal da Bahia,sob a direção de José Amarante. Fulgêncio é um autor pouco conhecido ainda no Brasil, mas elucidativo para se entender a transição entre o paganismo e o cristianismo, nos deixando conhecera visão cristã sobre o mundo antigo. Segundo os tradutores, “notadamente, no caso das Mitologiae, uma leitura cristã dos mitos pagãos, que resulta na perspectiva de uma humanidade regenerada”, perspectiva observada em Unde idolum (Sobre a origem dos ídolos), na tradução do texto de Fulgêncio por Sílvio Bernal e José Amarante. Outra tradutora envolvida no projeto de tradução das obras de Fulgêncio é Shirlei Almeida,que apresenta extratos selecionados de Expositio

Sermonum Antiquorum (Elucidação dos termos antigos). Uma espécie de enciclopédia que permite, aos leitores da Idade Média, o acessoe compreensão da cultura clássica, no que diz respeito aos seus temas, costumes e autores.

Para encerrar esse número, apresentamos a tradução de poemas da obra Todo Risco, o Ofício da Paixão, do poeta baiano Damárioda Cruz, pela espanhola María Luz García Lesmes. A tradutora se dedicou à tradução da obra do poeta nos últimos 3 anos, apresenta os problemas de se saber reconhecer os elementos culturais das línguas trabalhadas, assim como elementos constitutivos da poesia(melopeia, fanopeia, logopeia) para o êxito de uma tradução-versão que dê conta das semelhanças e diferenças entre o português e a língua espanhola. Para a tradutora, nos poemas de Damário, o trato com a polissemia e os jogos de palavras se misturam ao universo cultural do Recôncavo Baiano, “o ritmo dos versos evoca, às vezes, a musicalidade da frase rápida, cortada, quebrada e circular, como cantada em um samba de roda”. Finalizamos assim este sétimo número de A Palo Seco, que almeja continuar como um abrigo para os diálogos entre a filosofia e literatura.

Maria A. A. de Macedo

5

Darl, o homem de gênio em Faulkner

Leila de Almeida Barros

Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)

RESUMO:
Considerada pela crítica uma das mais enigmáticas criações de William Faulkner, a personagem Darl Bundren, do romance Enquanto Agonizo (1930), busca ser aqui analisada à luz do pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, principalmente no que diz respeito à noção do homem de gênio, conforme apresentado no terceiro livro de O Mundo como Vontade e como Representação (1819). Em Enquanto Agonizo, o autor leva ao extremo suas experimentações ficcionais por meio de 59 monólogos de quinze narradores que se revezam para contar a jornada da família Bundren, da qual participam direta ou indiretamente. A família de pequenos agricultores transporta, em uma carroça, o cadáver de sua matriarca até a capital do condado imaginário Yoknapatawpha, a fim de cumprir a promessa de enterrá-la junto ao restante de seus familiares. Mais adiante, nota-se que a longa e odisseica viagem não é concluída pela maior parte dos Bundrens por honra à memória da mãe, mas sim por conta de suas mesquinhas ambições pessoais. Enquanto os demais membros da família permanecem presos ao mundo do conceito e da abstração, em termos schopenhauerianos, o rapaz Darl parece contemplar nesse mesmo mundo a sua verdade. Dessa forma, nossa hipótese é a de que tal personagem seria como o homem de gênio schopenhaueriano, o “puro sujeito que conhece” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 254), o único dos Bundrens que possui uma sensibilidade artística e que se entrega a seu trágico destino, sobretudo, porque o mundo ao qual sua família se confina “não é o seu mundo” (FAULKNER, 2002, p. 223).
PALAVRAS-CHAVE: Enquanto Agonizo. O Mundo como Vontade e como Representação. Sensibilidadeartística.

ABSTRACT:
Considered by critics as one of the most enigmatic creations of William Faulkner, the character Darl Bundren in the novel As I Lay Dying (1930) will be here examined in the light of the thought of the German philosopher Arthur Schopenhauer, especially with regard to the notion of the genius as presented in the third book of The World as Will and Representation (1819). In As I Lay Dying, the author takes to the extreme his fictional experimentations through 59 monologues of fifteen narrators who take turns to tell the journey of the Bundren family, in which they participate directly or indirectly. The family of small farmers carries the corpse of their matriarch in a wagon to the capital of the fictional Yoknapatawpha County, in order to fulfill the promise to bury her with the rest of her family. Later on, it is observed that the long and odyssey-like travel is not completed by most of the Bundrens in honor of the memory of the mother, but because of their shallow personal ambitions. While the other members of the family remain trapped in the world of concept and abstraction, in schopenhaeurian terms, the young Darl contemplates in this world its truth. Thus, our hyphotesis is that the character could be compared to the schopenhauerian genius, the “pure subject of knowing” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 254), the only Bundren who has an artistic sensibility and surrenders to his tragic destiny, above all, because the world to which his family is confined “is not his world” (FAULKNER, 2002, p. 223).
KEYWORDS: As I Lay Dying. The World as Will and Representation. Artistic sensibility.

9

The Influence of John Stuart Mill on Oscar Wilde’s Concept of Freedom

Gustavo Hessmann Dalaqua

Universidade de São Paulo/USP

ABSTRACT:
This article aims to analyze the influence John Stuart Mill had on the concept of freedom put forth by Oscar Wilde in his essay The Soul of Man under Socialism. In the first section, we shall explain the doctrine of freedom presented in Mill’s On Liberty. In this work, Mill contends that liberty rules out blind obedience to custom. According to him, individuals can become free only when they criticize custom and start developing themselves in an autonomous way. For Mill, liberty partakes of an aesthetic dimension: by freely developing themselves, individuals would turn their lives into a noble and beautiful object of contemplation. This thesis is similar to Wildean dandyism, a doctrine according to which human life should be the object of artistic endeavor. In the second section, our goal will be to analyze some key passages from The Soul of Man under Socialism where Wilde dwells upon the issue of freedom. In this essay, Wilde explicitly affiliates his concept of freedom to “a fine thinker” who used to characterize liberty in opposition to conformity. It will be argued that the thinker Wilde alludes to is Mill. In order to support our argument, we shall, first, list textual evidences that demonstrate Wilde had already read On Liberty by the time he wrote The Soul of Man under Socialism. Then, we shall underscore the similarities between John Stuart Mill’s and Oscar Wilde’s concepts of liberty. In the end, we shall conclude that Wildean liberty is descended from Millian liberty.
KEYWORDS: Oscar Wilde. John Stuart Mill. liberty.

RESUMO:
Este artigo procura diagnosticar a influência que John Stuart Mill exerceu no conceito de liberdade desenvolvido por Oscar Wilde no opúsculo The Soul of Man under Socialism. Iremos, na primeira seção, explicar a doutrina da liberdade apresentada por Mill em On Liberty. Nesta obra, Mill afirma que a liberdade se opõe à obediência cega ao costume. De acordo com Mill, os indivíduos podem tornar-se livres apenas quando criticam o costume e passam a desenvolver-se de maneira autônoma. Para Mill, a liberdade possui uma dimensão estética: ao desenvolverem-se livremente, os indivíduos transformariam suas vidas em um objeto de contemplação nobre e belo. Esta tese, apontaremos, é muita próxima do dandismo wildiano, doutrina segundo a qual a vida humana deveria tornar-se objeto de um empreendimento artístico. Na segunda seção, nosso objetivo será o de analisar algumas passagens cruciais do opúsculo The Soul of Man under Socialism em que Wilde aborda o tema da liberdade. Neste ensaio, Wilde afilia explicitamente sua concepção de liberdade a um “excelente pensador” que costumava caracterizar a liberdade em oposição ao conformismo. Nossa hipótese é de que Mill seria o pensador para o qual Wilde alude. A fim de provar nosso argumento, iremos, primeiro, elencar evidências textuais que demonstram que Wilde já tinha lido On Liberty à época em que escreveu The Soul of Man under Socialism. Em seguida, iremos destacar as similaridades entre os conceitos de liberdade de Mill e de Wilde. Ao término, nossa conclusão será a de que a liberdade wildiana descende da liberdade milliana.
PALAVRAS-CHAVE: Oscar Wilde. John Stuart Mill. liberdade.

21

Idílio e memória nos escritos kunderianos

Eliana Pires Rocha

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/PUC/SP

RESUMO:
Ideologias totalitárias com pretensões à instituição de um credo universal ameaçaram a produção literária romanesca cujo espírito é ligado à relatividade e à ambiguidade humana. Kundera denunciou a crença idílica numa sociedade imemorial que subtraiu o presente em nome de um futuro feliz existencialmente inexitoso. A exploração da temporalidade aponta para uma memória forjada sob a opressão e o exílio experienciados pelo autor, que leva, desde o passado, algo para dentro do presente, a despeito de uma transformação contínua que atua sobre ela. Posicionando-se em torno dos efeitos temporais sobre a memória nas obras A brincadeira e A ignorância, postula o autor que estamos resignados ao concreto do tempo presente. Difusa, em constante evolução e permanente fluxo, toda lembrança evocada se sujeita aos filtros do presente e ao inusitado que essa atualização importa.
PALAVRAS-CHAVE: Kundera. Idílio. Memória.

ABSTRACT:
Totalitarian ideology with pretensions to the institution of a universal creed threatened literature novel whose spirit is linked to relativity and human ambiguity. Kundera denounced the idyllic immemorial belief in society that subtracted the gift on behalf of a happy future existentially unsuccessful. The exploration of temporality points to a memory forged under oppression and exile experienced by the author, which leads from the past, something inside of this, despite an ongoing transformation that operates on it. Positioning yourself around the temporal effects on memory in the works The play and Ignorance, the author proposes that we are subjected to this time. Diffuse, constantly evolving and continuous flow, all recollection evoked is subject to gift filters and unusual that this update implies.
KEYWORDS: Kundera. Idyll. Memory.

29

Quaderna, a mestiçaria brasileira encarnada

Tereza Pereira do Carmo

Universidade Federal da Bahia/UFBA

RESUMO:
Propomos neste trabalho analisar a fusão literária na Pedra do Reino e o príncipe do Sangue do vai-e-volta de Ariano Suassuna tendo como ponto de referência os recursos próprios da poética clássica utilizados pelo autor. Tratamos igualmente da ficção como meio seguro para se viver aventuras e construir um reino encantado e a composição da obra a partir da mistura que dá origem a Quaderna, o protagonista de Suassuna. Ao analisarmos as metamorfoses da personagem Quaderna, percebemos a influência de obras do passado e uma proposta criativa para a fundação de um reino. Como aedo, Quaderna apresenta o fim trágico de sua família e cria mitos e heróis na construção de seu Reino.
PALAVRAS-CHAVE: Suassuna. Quaderna. mestiçaria.

RESUMEN:
Proponemos en este trabajo analizar la fusión literaria en la obra Pedra do Reino e o príncipe do Sangue do vai-e-volta de Ariano Suassuna, valiéndonos de los recursos propios de la poética clásica utilizados por el a utor. Tratamos igualmente de la ficción como estrategia eficaz para presentar las vivencias de aventuras y construir un reino encantado y la composición de la obra a partir de la mezcla que da origen al Quaderna, el protagonista de Suassuna. Tras analizarnos las metamorfosis del personaje Quaderna, percibimos la influencia de las obras del pasado y una propuesta creativa para la fundación de un reino. Como aedo, Quaderna presenta el fin trágico de su familia y crea mitos y héroes en la construcción de su reino.
PALABRAS-CLAVE: Suassuna. Quaderna. mestiçaria.

39

Fortuna e Tragédia – de Aristóteles para o cinema

Cintia Sacramento Aquino

Universidade Federal da Bahia/UFBA

RESUMO:
Diversas são as formas de aprender, refletir e ter contato com questões filosóficas que surgiram na Antiguidade. O cinema tem se mostrado como uma dessas formas de nos fazer pensar e aprender sobre os dilemas que a vida pode nos apresentar. Uma das questões filosóficas tratadad por Aristóteles é que trata-se de um enigma saber se se obtém a boa vida por algum tipo de esforço, ou se ela acontece pela sorte. Para este artigo, partimos da inter-relação cinema e teoria literária no filme Match Point (2005) de Woody Allen para refletir sobre essa questão. Para tanto, unimos a questão de Aristóteles sobre a arbitrariedade ou não do sucesso ao seu estudo sobre a tragédia presente na Poética.
PALAVRAS-CHAVE: Fortuna. tragédia. cinema.

ABSTRACT:
There are different ways of learning, thinking about and getting in contact with philosophical questions that emerged from classical antiquity. The cinema has been seen as one of the ways of making us think and learn about questions that life may present us to. One of the aristotelian philosophical questions considers to be an enigma whether the good life was dependent on lucky or on any kind of effort to be a good person. For this article, we start from the intertextuality between cinema and literary theory in Woody Allen’s film Match Point (2005) to think about this aristotelian question. In order for that to be discussed, the idea of success being arbitrary or not proposed by Aristotle is joined here to his studies of tragedy written in Poetics.
KEYWORDS: Fortune. tragedy. cinema.

49

Notas sobre a narrativa de viagem na Literatura Grega

Rosana Baptista dos Santos

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri/UFVJM

RESUMO:
O objetivo deste artigo é analisar o tema da viagem na literatura grega. Escolheu-se, portanto, alguns textos para traçar um modelo da viagem e do viajante na tradição literária grega, a saber: Odisseia, atribuída a Homero, Paz e Aves, de Aristófanes. Essas obras exemplificam os componentes da viagem utópica, com heróis que, por motivações diversas, buscam retomar, fundar, alcançar ou apenas conhecer um local perfeito ou uma cidade fantástica, e para que isso ocorra, devem empreender uma difícil, mas compensadora jornada, à qual está prometido, com sucesso, um determinado desfecho.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura. viagem. herói.

ABSTRACT:
The goal of this article is to analyze the traveling theme inside the Greek Literature. Some texts were chosen to define a pattern of the traveling and the traveler inside the Greek literary tradition, namely: Odyssey, credited to Homer, Peace and The Birds from Aristophanes. These works exemplify components of an utopian trip with heroes that for different reasons seek retaking, establishing, reaching or simply getting to know a perfect place or a fantastic city, and for that to happen they must endure a difficult, yet rewarding, journey that is predicted to them with a successful outcome.
KEYWORDS: Literature. traveling. hero.

57

A decisão de Aquiles: Intensidade dramática e narrativa na Patrocleia (Ilíada XVI)

Martim Reyes da Costa Silva

Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG

RESUMO:
O artigo pretende discutir como no canto XVI da Ilíada, conhecido como Patrocleia, o poeta cria uma intensidade dramática que explora elementos centrais da narrativa, dando especial relevância ao episódio, que representa a principal reviravolta na trama da obra. Deste modo, a selvageria crescente neste canto traz à tona tanto a temática da irascibilidade diante de uma guerra longa e desgastante, que deu origem ao conflito entre Aquiles e Agamêmnon, quanto a perspectiva das mortes trágicas de Héctor e de Aquiles, centrais para a construção da trama. Em movimentos contínuos, a narrativa explora a dramaticidade da decisão de Aquiles em voltar ou não ao campo de batalha, dando a dimensão dos riscos que o mesmo precisa assumir em cada uma das possibilidades. Movidos pela paixão, Pátroclo e Aquiles discutem e deliberam uma solução parcial – o uso da armadura de Aquiles por Pátroclo – que poderia salvar os Aqueus sem descumprir a promessa de Aquiles de não intervir até que as naus fossem incendiadas. Os destinos trágicos de Aquiles e de Pátroclo se mostram, neste momento, irreversíveis: suas decisões são fruto da perspectiva limitada do próprio destino, característica essencial da condição humana, e os conduzem, junto às intervenções e desígnios divinos, às mortes gloriosas mas carregadas de sofrimento que lhes estavam reservadas.
PALAVRAS-CHAVE: Homero. Ilíada. Patrocleia. narrativa.

ABSTRACT:
The article discusses how in the sixteenth book of the Iliad (known as Patrocleia) the poet creates dramatic intensity using key elements of the narrative, giving special relevance to the episode, which is the main changing point in the plot of the poem. The increasing savagery in this book brings up both the issue of irascibility in front of a long and exhausting war, that had led to the conflict between Achilles and Agamemnon, as the prospect of the tragic deaths of Hector and Achilles, central to the building of the plot. In a continuous growing, the narrative explores the drama of the Achilles’ decision to return or not to the battlefield, giving the size of the risks it must take in each of the possibilities. Driven by passion, Patroclus and Achilles discuss and deliberate a partial solution – the use of armor for Achilles Patroclus – which could save the Achaeans without undoing the Achilles promise not to intervene until the ships were set on fire. The tragic fates of Achilles and Patroclus shows itself at this irreversible: their decisions are the result of the limited perspective of their own destiny, essential characteristic of the human condition, and lead them along with divine interventions and plans, to the glorious but suffering deaths that were reserved for them.
KEYWORDS: Homer. Iliad. Patrocleia. narrative.

71
Traduções

Nemeia 7 (485?), de Píndaro

Roosevelt Rocha

Universidade Federal do Paraná/UFPR



79

Unde idolum, de Fulgêncio

Sílvio Bernal
José Amarante

Universidade Federal da Bahia/UFBA



90

Expositio sermonum antiquorum
Elucidação dos termos antigos (recortes)

Shirlei Almeida

Universidade Federal da Bahia/UFBA



95

Todo Risco, o Ofício da Paixão de Damário da Cruz

María Luz García Lesmes

Universidade Federal da Bahia/UFBA



98

Bases indexadoras:

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