A Palo Seco, N. 14, 2021 - Escritos de Filosofia e Literatura 


A Palo Seco - N.14

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 13, N. 14, 2021
Escritos de Filosofia e Literatura


CONSELHO EDITORIAL

Alexandre de Melo Andrade - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Anelito Pereira de Oliveira - Universidade Federal de Minas Gerais/NEIA/UFMG, Brasil

Beto Vianna - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Camille Dumoulié - Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Celina Figueiredo Lages - Universidade Estadual de Minas Gerais/UEMG, Brasil

Christine Arndt de Santana - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Conceição Aparecida Bento - Univ. Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri/UFVJM, Brasil

Fabian Jorge Piñeyro - Universidade Pio Décimo/PIOX/Aracaju, Brasil

Fernando de Mendonça - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Jacqueline Ramos - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Jean-Claude Laborie -Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

José Amarante Santos Sobrinho - Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Leonor Demétrio da Silva - Exam. DELE-Instituto Cervantes/SE, Brasil

Lúcia Maria de Assis - Universidade Federal Fluminense/UFF, Brasil

Luciene Lages Silva - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Luiz Rosalvo Costa - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Marcos Fonseca Ribeiro Balieiro - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Maria A. A. de Macedo - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Oliver Tolle - Universidade de São Paulo/USP, Brasil

Renato Ambrósio - Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Rodrigo Pinto de Brito - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/UFRRJ, Brasil

Romero Junior Venancio Silva - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Rosana Baptista dos Santos - Univ. Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri/UFVJM, Brasil

Tarik de Athayde Prata - Universidade Federal de Pernambuco/UFPE, Brasil

Ulisses Neves Rafael - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Vladimir de Oliva Mota - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Waltencir Alves de Oliveira - Universidade federal do Paraná/UFPR, Brasil

William John Dominik - University of Otago, New Zealand (Professor Emeritus), Nova Zelândia

EDITORIA

Beto Vianna - Editor-Chefe

Luciene Lages Silva - Editor Gerente

PROJETO GRÁFICO e DIAGRAMAÇÃO

Julio Gomes de Siqueira

IMAGEM DA CAPA: arte sobre imagem disponível em Best HQ Wallpapers.

Este trabalho está distribuído sob uma Licença Creative Commons
Atribuição - Compartilha Igual - 4.0 Internacional.


Sumário

Apresentação

Beto Vianna, Luciene Lages Silva

APRESENTAÇÃO

Pode uma pergunta ser mentirosa? Em tempos de pós-verdade oficial, quando declarações públicas valem tanto quanto nossas dúvidas mais íntimas, a revista A Palo Seco abre assim a série de bons artigos e traduções que orgulhosamente compõe a sua 14ª. edição. Em “A pergunta enquanto mentira: Petersburgo (1913)de Andrei Biéli e a filosofia da linguagem”, David Molina, a partir de uma passagem do romance de Biéli, explora os limites entre a filosofia da linguagem e a ficção, ao examinar a possibilidade de uma pergunta – um ato de fala performativo, no dizer de Austin –, ter valor de verdade. É o que sugere o autor russo, ao utilizar o verbo solgat (mentir) para qualificar uma pergunta do personagem Nikolai Apollónovitch. Além do quebra-cabeças lógico-veritativo (que vale por si a leitura), Molina nos oferece um quadro bem desenhado da literatura russa e mundial dos séculos XIX e XX, e o lugar da obra de Boris Nikoláievitch Bugáiev – ou Andrei Biéli – nesse quadro.

Movendo-nos da mentira para o erro (e para o pecado), o segundo artigo é “Guimarães Rosa, um leitor de Plotino”, de Clarissa Marchelli. A autora analisa a presença do vocábulo “erro” nos três volumes que compõem Corpo de Baile. Marchelli examina a narrativa de Guimarães Rosa nessa obra, à luz não só da ascese de Plotino, mas dos sete pecados (ou erros, no vocabulário de Rosa) de Dante e do erro trágico de Aristóteles, atribuindo à poética rosiana, via Jung, a mesma “matéria de que são feitos os sonhos”.

Descendo do erro à fantasia, em “Ritmos e pensamentos em Fantasia para dois coronéis e uma piscina de Mário de Carvalho”, Rosana Baptista analisa dois elementos essenciais na composição do texto literário - os pensamentos e os ritmos - no romance Fantasia para dois coronéis e uma piscina, do escritor português Mário de Carvalho. Partindo do conceito de intertextualidade, a autora demonstra como Mário de Carvalho, em sua fantasia literária, recupera temas clássicos, como da Poética, de Aristóteles, e da Utopia, de More, associando-os de forma paródica e irônica a questões próprias da sociedade contemporânea. Do vale fantástico, subimos “A montanha mágica – apontamentos sobre o pensamento nietzschiano no romance de Thomas Mann”, em que Damião Farias apresenta uma análise interpretativa do romance de Mann, considerando, entre outros estudiosos, o filósofo Friedrich Nietzche. O autor se propõe também a observar as relações do romance com um ensaio de Thomas Mann, de 1929, acerca da contribuição de Freud para o “espírito moderno”. Nesse texto de Mann, as proposições freudianas frente aos ideais fascistas têm como pano de fundo a filosofia nietzschiana que, para Farias, congrega em sua formação a confluência de tradições iluministas e românticas próprias da cultura intelectual, filosófica e artística alemãs.

Ainda na seara nietzschiana, chegamos ao drama em “O Nascimento da Comédia: A crítica de Nietzsche ao teatro de Eurípides”. No artigo, Cléberton Barboza apresenta os pressupostos do filósofo alemão sobre o papel da música no efeito trágico das tragédias gregas. Para Nietzsche, o apagamento do papel das musas da música no teatro de Eurípides levaria aos poucos à morte da tragédia e ao fortalecimento da comédia, em um jogo que põe fim ao pessimismo trágico e eleva o otimismo da razão. Já em “O desejo em cena na vida escrita de Samuel Beckett”, Caio Reis investiga a obra e vida do dramaturgo, buscando observar o processo de criação de Beckett e como a sua escrita está ligada às suas experiências de vida. A partir de entrevistas realizadas por Charles Juliet e da observação de fatos históricos determinantes na vida de Beckett (como a segunda guerra mundial), Reis examina as influências sobre sua concepção de mundo e o entendimento da condição humana, expressos em suas falas, personagens e obras.

Fechando a sessão de artigos, sentimos que “Há algo de podre na vingança: Hamlet segundo a filosofia de René Girard”. No artigo, Marco Antônio S. Monteiro se debruça sobre a sugestão do filósofo francês de que há na peça uma ênfase na repulsa pela ética da vingança. O artigo apresenta uma abordagem que privilegia a teoria mimética e o sacrifício do bode expiatório propostos por Girard na leitura da obra shakespeariana. A análise se enriquece pela observação do protagonista, que procura evitar assumir uma ética da vingança imediata ou que apresenta certa procrastinação ao assumir diretamente a vingança sob o pretexto de se preparar o melhor momento.

Na sessão de traduções, Ana Paula Silva Santos apresenta três fábulas do ciclo mítico de Ceres, compostas pelo Primeiro Mitógrafo do Vaticano durante a Idade Média. Nesse período, foram produzidas muitas coleções que resgatavam os mitos clássicos por meio de uma leitura guiada pela filosofia moral cristã. Conhecida entre os gregos como Deméter, deusa da fertilidade, Ceres é mãe de Prosérpina que foi raptada por Plutão. Na narrativa apresentada pelo mitógrafo, nota-se a preocupação em além de narrar, interpretar alegoricamente o mito, de modo que a história narrada parece relacionar o rapto de Prosérpina com o surgimento das luas crescente e minguante.

Encerramos este número com a oportuna tradução de “O caminho da nova mulher”, em que Raíssa Costa apresenta o leitor de português à prosa libertária de Noe Itō, feminista e anarquista japonesa, ela mesma tradutora e divulgadora dos escritos de Emma Goldman no Japão das eras Meiji e Taishō. O texto, publicado originalmente na revista Seitō, em 1913, fala das dificuldades que aguardam quem se dispõe a seguir – e a ser guia – por caminhos estranhos à norma social vigente. O caminho da tradutora (ou do tradutor) está repleto de armadilhas, mais ainda quando à distância linguística se soma a cultural, no tempo e no espaço. Costa soube percorrer essa trilha com chie.

Mentira, erro, pecado, fantasia, drama, vingança e traição (ou tradução). É o que a revista A Palo Seco oferece a suas leitoras e leitores, colaboradoras e colaboradores, ao menos até a edição, ou as eleições, de 2022.

Os editores
Beto Vianna
Luciene Lages Silva

5
Artigos

A pergunta enquanto mentira: Petersburgo (1913) de Andrei Biéli e a filosofia da linguagem

David G. Molina

Universidade de Chicago/EUA

RESUMO: O artigo investiga aspectos da filosofia da linguagem em sua relação com a literatura a partir de uma passagem extraída do romance Petersburgo (1913) do escritor simbolista russo Andrei Biéli.
PALAVRAS-CHAVE: Andrei Biéli. Petersburgo. John Searle. Filosofia da linguagem. Atos de fala.

ABSTRACT: The article investigates aspects of the philosophy of language in its relation to literature based on a passage taken from the novel Petersburg (1913) by the Russian Symbolist writer Andrei Biéli.
KEYWORDS: Andrei Biéli. Petersburg. John Searle. Philosophy of language. Speech acts.

9

Guimarães Rosa, um leitor de Plotino

Clarissa Marchelli

Universidade Estadual de Campinas/UNICAMP

RESUMO: O presente trabalho visa destacar as passagens nas quais o léxico erro aparece em Corpo de Baile, de Guimarães Rosa, compreendendo o vocábulo enquanto escolha intuitiva do autor para construção e tratamento epistemológico dado às trajetórias de seus protagonistas. O trabalho apresenta uma leitura a contrapelo do erro trágico, defendendo que nesse ciclo a percepção de um erro e as questões éticas que dele decorrem, constituem o argumento rosiano de Corpo de Baile. Do rastreamento do vocábulo erro às epígrafes plotinianas, em Corpo de Baile, Guimarães Rosa elabora uma poética de ordem metafísica. Absorvendo as hipostasias plotinianas, Rosa toma emprestado do neoplatônico sua formulação de centro, alma, ascese e transcendência. Em profícuo diálogo com o cânone literário, Rosa projeta num Brasil profundo a tradição dos sete pecados capitais.
PALAVRAS-CHAVE: Guimarães Rosa. Plotino. Dante Aliguieri.

ABSTRACT: This paper aims to highlight the passages in which the lexicon error appears in Corpo de Baile, by Guimarães Rosa, understanding the word as the author’s intuitive choice for the construction and epistemological treatment given to the trajectories of its protagonists. The work presents a counter reading of the tragic error, arguing that in this cycle the perception of an error and the ethical issues that arise from it, constitute the Rosian argument of Corpo de Baile. From the trace of the word error to the plotinian epigraphs, in Corpo de Baile, Guimarães Rosa elaborates a poetry of a metaphysical order. Absorbing Plotinian hypostasies, Rosa borrows from the Neoplatonic’s formulation of center, soul, asceticism and transcendence. In a fruitful dialogue with the literary canon, Rosa projects the tradition of the seven deadly sins in a deep Brazil.
KEYWORDS: Guimarães Rosa. Plotinus. Dante Aliguieri.

22

Ritmos e pensamentos em Fantasia para dois coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho

Rosana Baptista dos Santos

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri/UFVJM

RESUMO: Este artigo analisa os pensamentos e os ritmos, elementos essenciais para a composição de um texto literário, do romance Fantasia para dois coronéis e uma piscina, do escritor português Mário de Carvalho. Essa ‘fantasia literária’, designada como ‘cronovelema’ pelo autor, retoma os filósofos Aristóteles e Thomas More, para propiciar ao narrador, personagens e leitores, a partir da paródia da Poética e da Utopia, uma viagem por Portugal e pelo universo semântico do texto. Parte-se do conceito de intertextualidade para o estudo dos diálogos estabelecidos com temas e textos literários portugueses, da tradição literária grega e latina, centrando atenção nas discussões metaficcionais e filosóficas reelaboradas por um autor-narrador e por personagens. O objetivo foi demonstrar como Mário de Carvalho recupera os temas clássicos para associá-los, de forma paródica e irônica, aos problemas da sociedade e do homem contemporâneo.
PALAVRAS-CHAVE: Poética. Fantasia. Paródia.

ABSTRACT: This article analyzes the thoughts and rhythms, essential elements for the composition of a literary text, from the novel Fantasia para dois coronéis e uma piscina, by Portuguese writer Mário de Carvalho. This ‘literary fantasy’, designated as ‘chronovelema’ by the author, takes up the philosophers Aristotle and Thomas More to provide the narrator, characters and readers, based on the parody of Poetics and Utopia, on a journey through Portugal and through the semantic universe of the text . Starting from the concept of Intertextuality for the study of established dialogues with Portuguese literary themes and texts, from the Greek and Latin literary tradition, focusing attention on metafictional and philosophical discussions elaborated by an author-narrator and characters. Starting from the concept of Intertextuality, the main goal was to demonstrate how Mário de Carvalho reuses the classical themes to associate them, in an ironic and parody-like way, with the problems of contemporary society and man.
KEYWORDS: Poetics. Fantasy. Parody.

40

A montanha mágica – apontamentos sobre o pensamento nietzschiano no romance de Thomas Mann

Damião Farias

Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD

RESUMO: O artigo apresenta uma análise interpretativa do romance A montanha mágica, de Thomas Mann, observando as perspectivas apresentadas por diversos estudiosos, seja como um romance de formação (Bildungsroman) ou sobre o tempo (Zeitroman). Nossa leitura irá explorar noções estratégicas no romance e estabelecer pontes entre elas e o pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche de modo a imaginar o escrito de Mann como expressão de uma Weltanschauung – outra tradição cultural alemã. Utilizamos, como ponto de partida, o ensaio de Thomas Mann, de 1929, escrito a propósito de avaliar a contribuição de Freud para o “espírito moderno”. No ensaio, o autor conjectura aproximações entre A montanha mágica e algumas proposições freudianas, e tem por objetivo fazer frente aos ideais fascistas. Todavia, o seu pano de fundo é constituído pela filosofia nietzschiana, que, segundo o eminente romancista, fora elaborada na superação e, ao mesmo tempo, nas confluências das tradições, iluminista e romântica, próprias da cultura intelectual, filosófica e artística alemã.
PALAVRAS-CHAVE: A montanha mágica. Thomas Mann. Nietzsche. Freud.

ABSTRACT: This article presents an interpretative analysis of the romance The Magic Mountain, by Thomas Mann, observing the perspectives presented by several scholars, either as a romance of formation (Bildungsroman) or as a romance about time (Zeitroman). Our reading will explore strategic notions in the romance and establish points between them and the thinking of the philosopher Friedrich Nietzsche, in order to see the romance as a Weltanschauung expression - another German cultural tradition. We have started with an essay by Thomas Mann, from 1929, written with the purpose of evaluating Freud’s contribution to the “modern spirit”. In the essay, the writer relates A montanha mágica with Freudian propositions, and his goal is to face the fascist ideals. However, its background is composed by the Nietzschean philosophy, which according to the eminent romancist, had been elaborated by attempts of overcoming as well as confluences of illuminist and romantic traditions, typical of the German intellectual, philosophical and artistic culture.
KEYWORDS: The Magic Mountain. Thomas Mann. Nietzsche. Freud.

51

O nascimento da Comédia: a crítica de Nietzsche ao teatro de Eurípides

Cléberton L. G. Barboza

Universidade Federal de Sergipe/UFS

PALAVRAS-CHAVE: A música possui, em O Nascimento da Tragédia, uma força dionisíaca capaz de extasiar o heleno no palco da tragédia ática. Para Nietzsche, é a música que gera o mito, e o estado de ânimo musical que rege toda a disposição para a arte e todo o sentido profundo da arte como redenção, salvação e justificação da vida como fenômeno estético. Buscamos examinar aqui o processo que levou ao fim da arte trágica dos gregos, no sentido de observar o socratismo antes da figura de Sócrates aparecer entre os helenos. A inclinação por clareza e lógica na narrativa do drama musical grego propicia já em Sófocles, mas sobretudo em Eurípides, a mudança que introduz, na arte, o lógico em detrimento do trágico. As musas da música são constrangidas até abandonarem o palco e esvaziar o mito de sua força musical, matando a tragédia. O que resta é uma presença figurativa que, a partir de Eurípides, dá origem à comédia, que põe fim ao pessimismo trágico, pelo otimismo da razão.
PALAVRAS-CHAVE: Nietzsche. Eurípides. Tragédia. Música.

ABSTRACT: In The Birth of Tragedy, music possesses a Dionysian force capable of enrapturing the Hellenic on the stage of Attic tragedy. For Nietzsche, it is music that generates the myth, and the musical mood that governs all disposition for art and all the deep meaning of art as redemption, salvation and justification of life as an aesthetic phenomenon. We seek to examine here the process that led to the end of the tragic art of the Greeks, in the sense of observing Socratism before the figure of Socrates appeared among the Hellenes. The inclination for clarity and logic in the narrative of Greek musical drama already provides Sophocles, but especially in Euripides, the change that introduces, in art, the logic to the detriment of the tragic. The muses of music are constrained until they leave the stage and empty the myth of its musical force, killing the tragedy. What remains is a figurative presence that, starting from Euripides, gives rise to comedy, which puts an end to tragic pessimism, through the optimism of reason.
KEYWORDS: Nietzsche. Euripides. Tragedy. Music.

71

O desejo em cena na vida escrita de Samuel Beckett

Caio Reis

Universidade do Estado da Bahia/UNEB

RESUMO: Este trabalho pretende pensar a escrita em Samuel Beckett e sua relação com a vida deste escritor. A palavra vida pode ser pensada como: cenários, percursos, experiência de escrita, narrativas influenciadas por acontecimentos históricos e culturais. Neste processo entre escrita e vida, a literatura e o sentido das coisas são aproximados do trabalho criativo de Beckett, através de conteúdos discutidos em passagens da entrevista dada a Charles Juliet, nas obras de Samuel Beckett e dos efeitos produzidos entre o escritor e as experiências de sua vida, momentos presentes em seu pensamento, suas falas, personagens e criação. Como recurso de interpretação, o sentido da linguagem e a psicanálise são ferramentas eleitas para analisar o tema e enriquecer a discussão. O período da Segunda Guerra Mundial como cerne do entendimento da condição humana atravessou Beckett em sua concepção de mundo. A forma de escrita presente em suas obras vai se modificando à medida que a história do mundo o afeta, até o momento em que surge O inominável, sem possibilidade de ser categorizado, é o lugar que Beckett funda na crítica, na escrita e na literatura a necessidade de analisar, refletir e pensar o lugar na literatura frente ao sintoma incessante da tradição. A escrita em O inominável, portanto, é tida como extremamente moderna. Para Samuel Beckett, era apenas uma forma de entrever o mundo para poder respirar.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura. Samuel Beckett. O inominável.

ABSTRACT: This work intends to think about Samuel Beckett’s writing and his relationship with this writer’s life. The word life can be thought of as: scenarios, routes, writing experience, narratives influenced by historical and cultural events. In this process between writing and life, literature and the meaning of things are brought closer to Beckett’s creative work, through contents discussed in passages from the interview given to Charles Juliet, in the works of Samuel Beckett and the effects produced between the writer and the experiences of his life, moments present in his thoughts, his speeches, characters and creation. As an interpretation resource, the sense of language and psychoanalysis are chosen tools to analyze the theme and enrich the discussion. The period of World War II as the core of the understanding of the human condition crossed Beckett in his conception of the world. The form of writing present in his works changes as the history of the world affects him until the moment when The unnamable, without the possibility of being categorized, is the place that Beckett founds in criticism, in writing and in literature. need to analyze, reflect and think about the place in literature in face of the incessant symptom of tradition. The writing in The Unnamable is therefore regarded as extremely modern. For Samuel Beckett it was just a way of seeing the world so he could breathe.
KEYWORDS: Literature. Samuel Beckett. The unnamable.

86

Há algo de podre na vingança: Hamlet segundo a filosofia de René Girard

Marco Antônio S. Monteiro

Universidade Católica de Petrópolis/UCP

RESUMO: René Girard apresentou-nos uma instigante interpretação sobre Hamlet de Shakespeare, na qual ele afirma que a emoção essencial trabalhada na peça é a repulsa pela ética da vingança. A partir dessa perspectiva, o presente artigo pretendeu fazer uma breve investigação sobre os principais elementos da filosofia girardiana, aplicando o seu método para explicar certos aspectos narrativos da obra de Shakespeare e a forma como o autor trabalhou a questão da vingança nessa peça. Foram abordadas a teoria mimética de Girard e o sacrifício do bode expiatório, dois elementos que, segundo o pensador francês, estão presentes por toda a obra shakespeariana. Através do método qualitativo dedutivo, observou-se que a visão girardiana sobre Hamlet merece uma atenção especial, pois evidencia os riscos da adoção da ética da vingança que o protagonista tentou de todas as formas evitar, ao perceber que ela é apenas um meio de se perpetuar a violência.
PALAVRAS-CHAVE: Shakespeare. Girard. Vingança. Teoria mimética. Hamlet.

ABSTRACT: René Girard presented us an intriguing interpretation of Shakespeare’s Hamlet, in which he states that the essential emotion worked in the play is the revulsion of the ethics of revenge. From this perspective, this article intends to make a brief investigation on the main elements of the Girardian philosophy, applying its method to explain certain narrative aspects of Shakespeare’s work and the way the author worked the issue of revenge in this play. Girard’s mimetic theory and the sacrifice of the scapegoat were discussed, two elements that, according to the French thinker, are present throughout Shakespeare’s work. Through the qualitative deductive method, it was observed that the Girardian view of Hamlet deserves special attention, as it highlights the risks of adopting the ethics of revenge that the protagonist tried in every way to avoid, realizing that it is only a means of perpetuate violence.
KEYWORDS: Shakespeare. Girard. Revenge. Mimetic theory. Hamlet.

99
Traduções

Primeiro Mitógrafo do Vaticano: Tradução do ciclo mitológico de Ceres

Ana Paula Silva Santos

Universidade Federal da Bahia – UFBA

          O Primeiro Mitógrafo do Vaticano é um dos três autores anônimos que compõem uma coleção de mitos clássicos, descoberta por Angelo Mai em alguns manuscritos na biblioteca do Vaticano na época em que era prefeito da biblioteca. Mai publicou sua edição princeps sob o título Classicorum Auctorum e Vaticanus Codicibus Editorum Tomus III em 1831. Essa coleção de narrativas são manuais de histórias mitológicas, que foram compostos durante a Idade Média com o objetivo não apenas de salvar os mitos clássicos mas também de transmitir os conhecimentos contidos neles, tendo como base a filosofia moral cristã. Essas três obras dispõem de autoria distinta, embora no começo de sua aparição tenham sido estudadas como sendo pertencentes a um único autor...


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O caminho da nova mulher, de Noe Itō

Raíssa Nunes Costa

Universidade de Tsukuba, Japão

          Em seu texto “What I believe”, de 1908, a autora e ativista anarquista Emma Goldman escreve: “A história do progresso é escrita no sangue de homens e mulheres que ousaram abraçar causas impopulares, como, por exemplo, o direito do homem negro a seu corpo e o direito da mulher a sua alma”. A ideia de que o progresso só se alcança com luta e dor daqueles que se atrevem a andar para além dos limites socialmente impostos, expressa por Goldman, é o assunto do texto “O caminho da nova mulher”, de Noe Itō, aqui traduzido. Nele é possível enxergar marcas da influência das ideias de Goldman, sabidamente uma das principais inspirações da autora japonesa...


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