A Palo Seco, N. 10, 2017 - Escritos de Filosofia e Literatura: Poética 


A Palo Seco 2018
chamada para publicação

Artigos e traduções inédita de textos filosóficos ou literários devem ser submetidos até 15 de julho de 2018

A Palo Seco - N.10

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 9, N. 10, 2017
Escritos de Filosofia e Literatura: Poética


CONSELHO EDITORIAL

Alexandre de Melo Andrade - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Camille Dumoulié - Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Celina Figueiredo Lages - Universidade Estadual de Minas Gerais/UEMG, Brasil

Christine Arndt de Santana - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Conceição Aparecida Bento - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM

Fabian Jorge Piñeyro - Universidade Pio Décimo/PIOX/Aracaju, Brasil

Jacqueline Ramos - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Jean-Claude Laborie - Université de Paris Ouest-Nanterre-La Défense, França

José Amarante Santos Sobrinho - Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Leonor Demétrio da Silva - Exam. DELE-Instituto Cervantes/SE, Brasil

Lúcia Maria de Assis - Universidade Federal Fluminense/UFF, Brasil

Luciene Lages Silva - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Maria A. A. de Macedo - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Oliver Tolle - Universidade de São Paulo/USP, Brasil

Renato Ambrósio - Universidade Federal da Bahia/UFBA, Brasil

Romero Junior Venancio Silva - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Rosana Baptista dos Santos - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM

Tarik de Athayde Prata - Universidade Federal de Pernambuco/UFPE, Brasil

Ulisses Neves Rafael - Universidade Federal de Sergipe/UFS, Brasil

Waltencir Alves de Oliveira - Universidade federal do Paraná/UFPR, Brasil

William John Dominik - University of Otago, New Zealand (Professor Emeritus), Nova Zelândia

 

EDITORIA

Luciene Lages Silva - Editora Chefe

Alexandre de Melo Andrade - Editor Adjunto

Maria A. A. de Macedo - Editora Adjunta

Jacqueline Ramos - Editora Adjunta

PREPARAÇÃO DOS ORIGINAIS

Luciene Lages Silva

 

CAPA e EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Julio Gomes de Siqueira

 

IMAGEM DA CAPA: Cleopatra Flesh (1962), de Jules Olitski


Sumário

Apresentação

Luciene Lages Silva

Apresentação

Esse número especial de A Palo Seco vem reafirmar os intentos do GeFeLit – Grupo de estudos em Filosofia e Literatura – de demonstrar possíveis investigações e reflexões em torno de temas caros e comuns no eterno e instigante diálogo entre a filosofia e a literatura como formas de práticas, de fazeres que privilegiam, nesse momento, Poética ou as Poéticas que inauguram, aproximam, fundamentam, definem e até questionam velhas e novas formas de se pensar o fazer poético. Os textos apresentados aqui foram selecionados a partir das conferências e mesas-redondas do IV Colóquio de Filosofia e Literatura do GeFeLit: Poética, realizado na Universidade Federal de Sergipe em julho de 2017.

Abrimos essa edição com o texto integral da conferência de abertura do poeta, ensaísta e editor, Alexei Bueno, que nos oferta uma reflexão a respeito da poesia pré-modernista brasileira, mais precisamente, uma revisão crítica da historiografia literária brasileira que defendeu um certo sincretismo entre poetas das primeiras décadas do século XX, chamados equivocadamente de pré-modernistas e agentes “de um dos períodos mais mal compreendidos da poesia lírica brasileira”, na defesa do autor.

Na sequência, Beto Vianna analisa as manifestações do universo ficcional como resposta cultural ao pensamento representacionista que se apoiou tanto na epistemologia ocidental quanto na filosofia da linguagem. As personagens ficcionais analisadas não são privilégio da chamada literatura propriamente “literária”, ou mais precisamente fazem parte do universo da ficção científica, como Spock da série de tv “Star Trek”, “Jornada nas estrelas”; Sherlock Holmes de Conan Doyle e os robôs de Asimov.

O texto de Antonio Eduardo Soares Laranjeira se centra na análise dos personagens de ficção dos contos de Mário Bortolotto em DJ: canções para tocar no inferno, e amparado pela concepção foucaultiana de estética da existência, observa como a cultura pop influenciou a produção de subjetividades dessas personagens.

Fernando de Mendonça apresenta um estudo acerca do romance A maçã no escuro de Clarice Lispector privilegiando a abordagem fenomenológica de Gaston Bachelard acerca dos elementos da natureza e da potência criadora da terra, relacionando o percurso do protagonista Martin com uma reflexão sobre o processo de criação literária.

A contribuição de Eduardo Cesar Maia apresenta uma proposição sobre as ideias do filósofo italiano Ernesto Grassi (1902-1991) a respeito da revalorização estritamente filosófica do pensamento humanista e, portanto, da literatura e da retórica como formas legítimas de especulação sobre o real, por meio da revisão de certos pensadores como Dante, Petrarca, Quintiliano, Cícero, Angelo Poliziano, Coluccio Salutati, Lorenzo Valla, Albertino Mussato, Leonardo Bruni e, principalmente, Giambattista Vico, pensadores que em certo sentido foram deixados à margem da filosofia “oficial”.

Em “Fábula e invenção”, Oliver tolle se dedica a teoria da arte de Sulzer (apoiada na psicologia empírica da escola leibniziana) em que a partir dos conceitos de fábula e invenção procura demonstrar como a criação poética depende mais de observação do que está dado do que de uma invenção, permitindo uma identificação entre a atividade criadora e a do leitor, motivados pelo desafio de reconhecer um significado universal da natureza humana, que contempla também as belas artes como área de saber.

Com “O gótico e os limites do iluminismo: o caso Wuthering heights”, Marcos Fonseca R. Balieiro examina a obra O Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, buscando estabelecer os aspectos que a associam à tradição gótica, mas problematizando o quanto a obra pode ser lida como tentativa de recusa ao denominado gótico feminino, ao modelo de sociabilidade imposto às mulheres naquele período por influência da filosofia das luzes britânicas.

O artigo de Christine Arndt de Santana nos remete também ao século XVIII e apresenta uma aná- lise da Poética do drama em Diderot, a autora procura demonstrar como o filósofo se utilizou da tragédia doméstica e burguesa como meio de direcionar o homem ao esclarecimento por meio de uma educação estética, visto que o homem esclarecido é sábio, assim como o bom é virtuoso.

O teatro, agora de Voltaire, é abordado nesse número especial por Vladimir de Oliva Mota. Em “A presença da ideia de combate no teatro de Voltaire”, o autor defende que a escolha do gênero teatral na obra do filosófo iluminista é a mais importante artilharia do seu arsenal de luta filosófica, e o combate em Voltaire aparece tanto como crítica e polêmica ao que impeça o bem-estar dos homens em sociedade, quanto como modo de divulgação de seus ideais reformistas que visavam esclarecer leitores e espectadores a deter o mal moral em prol da ideia de civilização.

As duas próximas contribuições privilegiam as poéticas do cômico: em “Poéticas do Cômico na Literatura Brasileira do Século XIX: zombaria, malandragem, ironia”, Jacqueline Ramos se foca na produção literária brasileira do séc. XIX observando como os variados modos de comicidade e funcionalidade do cômico se apresentam na literatura nacional do período, seja através das comédias de costumes de Martins Pena e Qorpo Santo, entre outros; seja na neopicaresca de Memórias de um sargento de Milícias ou pela obra de Machado de Assis que vincula o cômico ao filosófico por meio do seu diálogo com a sátira menipeia e a tradição luciânica.

A poética cômica é também tematizada por Ana Maria César Pompeu, cuja pesquisa procura estabelecer uma poética da comédia antiga a partir de análises da obra de Aristófanes, que de acordo com a autora antecipa a filosofia platônico-aristotélica no que concerne a conceitos fundamentais sobre o fazer poético. Desse modo, o artigo busca estabelecer uma poética da comédia grega antiga a partir das pistas dos próprios textos das peças do comediógrafo grego, sobretudo em Acarnenses, paradigma da comédia antiga na defesa da cidade justa durante a celebração das Dionísias Rurais pela paz.

Em “O furor de Hipólito na Phaedra de Sêneca”, Tereza Pereira do Carmo se centra na análise da personagem Hipólito para demonstrar como Sêneca conjuga na peça tanto o tragediógrafo quanto o filosófo ao abordar o abandono da razão por meio da paixão como um erro de julgamento que tem consequências sempre funestas. Em Phaedra, o furor se presentifica nas palavras e ações do filho de Teseu, a personagem é irracional dominada pelo pathos, considerado “uma doença intelectual que priva a alma da saúde”.

Por último, e não menos importante, finalizamos esse número com a reflexão de Orlando Luiz de Araújo sobre a concepção de herói grego antigo representado nos poemas épicos de Homero, na lírica de Tirteu e no teatro de Sófocles. Abordagem que privilegia o herói como potência integrada à coletividade, como o que está entre o humano e o divino, o animal e o deus, terrível e extraordinário como proferido pelo coro em Antígona ou como Aquiles e Odisseu na Ilíada e Odisseia.

Por fim, o Grupo agradece a todos os que fizeram possíveis tanto o Colóquio quanto os resultados dos encontros e discussões, em parte representados aqui pelos textos de 13 pesquisadores que nos brindaram com os resultados de suas investigações que vistas em seu conjunto colocam a filosofia e a literatura de mãos dadas demonstrado nessas variadas abordagens que ora investigam uma poesia de fundo filosófico, ora uma filosofia que se utiliza do poético, entre tantas outras aproximações1.

Luciene Lages Silva


1. Registramos nosso agradecimento à CAPES pelo auxílio financeiro que viabilizou, mais uma vez, o IV Colóquio do GeFeLit custeando a vinda de nossos conferencistas e palestrantes.

4

A poesia pré-modernista brasileira: uma crítica da crítica

Alexei Bueno

Poeta, ensaísta, editor

RESUMO:
A conferência busca dar uma visão de conjunto da poesia pré-modernista brasileira, a partir da diluição e fusão das influências parnasianas e simbolistas, ainda marcantes na obra inicial da quase totalidade de poetas brasileiros depois classificados como modernistas, analisando acertos e equívocos da crítica em relação a essa espécie de sincretismo presente nas três primeiras décadas do século XX. Ainda procura delinear a diferença entre moderno e modernista, bem como traça considerações sobre a denominação consagrada em relação ao lirismo brasileiro desse período.
PALAVRAS-CHAVE: Poesia. Pré-modernismo. Lirismo.

ABSTRACT:
The conference seeks to give an overview of Brazilian premodernist poetry, from the dilution and fusion of Parnassian and Symbolist influences, still striking in the initial work of almost all Brazilian poets later classified as modernists, analyzing correctness and misunderstanding of criticism in relation to this kind of syncretism present in the first three decades of the twentieth century. It still seeks to delineate the difference between modern and modernist, as well as outlines considerations about the consecrated denomination in relation to the Brazilian lyricism of that period.
KEYWORDS: Poetry. Pre-modernism. Lyricism.

7

A lógica do código: Spock, Sherlock e os robôs de Asimov

Beto Vianna

Universidade Federal de Sergipe/Letras-Ita

RESUMO:
A linguística, apesar do seu vocabulário interacionista, resiste em se livrar da noção de representação, recorrente nas suas mais diversas abordagens teóricas. O conceito de representação é tributário da história profunda da epistemologia ocidental e, mais recentemente, das escolas hegemônicas na filosofia da linguagem e nas ciências cognitivas. Uma consequência da aceitação do pensamento representacionista é o duplo uso do código linguístico: como marcador político (o que conta como linguístico, e quem conta como linguista) e legitimador do seu estatuto de ciência, na academia e para o público leigo. Processos ontogênicos (de desenvolvimento) e coontogênicos (interacionais) dos seres linguajantes ficam fora da análise como corolário dessas escolhas, delimitando o que é e quem está autorizado a fazer ciência da linguagem. Proponho analisar manifestações do universo ficcional como traduções ou respostas culturais à aceitação acadêmica do representacionismo, ao código como fenômeno linguístico, e à invisibilidade dos processos dinâmicos do organismo nas explicações tradicionais e atuais da linguagem.
PALAVRAS-CHAVE: Código linguístico. Ficção científica. Coontogenia.

ABSTRACT:
Linguistics, despite its interactionist vocabulary, resists getting rid of the notion of representation, pervasive in many of its theoretical approaches. The concept of representation is found in the deep history of Western epistemology and, more recently, in the hegemonic schools within the philosophy of language and the cognitive sciences. One consequence of the acceptance of representationalist thinking is the dual use of the linguistic code: as a political marker (what counts as linguistic, and who counts as a linguist) and to legitimate its status as a science in the academy and for the lay public. As a corollary of these choices, ontogenetic (developmental) and coontogenic (interactional) processes of languaging beings are excluded from analysis, delimiting what is and who is allowed to do language science. I propose to analyze manifestations of the fictional universe as cultural translations of, or a response to, the academic acceptance of representationalism, the code as the sole linguistic phenomenon, and the invisibility of dynamic organism processes in current and traditional explanations of language.
KEYWORDS: Linguistic code. Science fiction. Coontogeny.

27

A Letra e A Terra: Clarice e o devaneio poético em A Maçã no Escuro

Fernando de Mendonça

Universidade Federal de Sergipe / UFS

RESUMO:
O romance ‘A Maçã no Escuro’ (1961), de Clarice Lispector, será aqui iluminado por uma das abordagens fenomenológicas que Gaston Bachelard dedicou aos elementos da natureza: a potência criadora da terra. Com base em ‘A Terra e Os Devaneios da Vontade’, e na sequência ‘A Terra e Os Devaneios do Repouso’ (originalmente publicados em 1948), será interpretado o percurso do protagonista Martin, que culmina em um movimento de escrita poética e uma ampla reflexão sobre o processo de criação literária.
PALAVRAS-CHAVE: Devaneio Poético. Criação Literária. Fenomenologia.

ABSTRACT:
The Clarice Lispector’s novel ‘The Apple in The Dark’ (1961) will be illuminated here by one of Gaston Bachelard’s phenomenological approaches to the elements of nature: the creative power of the earth. Based on ‘Earth and Reveries of Will’, and in the sequel ‘Earth and Reveries of Repose’ (originally published in 1948), it will be interpreted the course of the protagonist Martin, culminating in a movement of poetic writing and a reflection on the process of literary creation.
KEYWORDS: Poetic Reverie. Literary Creation. Phenomenology.

43

A estética da existência na ficção de Mário Bortolotto

Antonio Eduardo Soares Laranjeira

Universidade Federal da Bahia/ILUFBA

RESUMO:
Este trabalho tem como objetivo refletir sobre os modos de subjetivação, a partir da leitura de contos do livro DJ: canções pra tocar no inferno, de Mário Bortolotto. Com base na concepção foucaultiana de estética da existência, pretende-se investigar de que modo a cultura pop, e, mais especificamente, o rock and roll está envolvido na produção das subjetividades das personagens da ficção de Bortolotto, compreendida como parte do discurso literário pop contemporâneo, conforme teorizado por Evelina Hoisel e Décio Cruz.
PALAVRAS-CHAVE: Discurso literário pop. Estética da existência. Rock and roll.

ABSTRACT:
This work aims to discuss about modes of subjectivation, based on Mario Bortolotto’s short stories from DJ: canções para tocar no inferno. In dialogue with Foucault’s reflections on aesthetics of existence, we intend to investigate how pop culture, mainly represented by rock and roll, is related to the production of the character’s subjectivities in Bortolotto’s fiction, considered as part of contemporary pop literary discourse, according to Evelina Hoisel and Décio Cruz.
KEYWORDS: Pop literary discourse. Aesthetics of existence. Rock and roll.

53

Ernesto Grassi e a reabilitação da tradição humanista:
literatura e retórica como formas de conhecimento

Eduardo Cesar Maia Ferreira Filho

Universidade Federal de Pernambuco/UFPE

RESUMO:
O filósofo italiano Ernesto Grassi (1902-1991) propôs uma visão particular a respeito do problema da palavra na história da filosofia. Após revisar detidamente uma série de pensadores que sempre foram deixados à mar- gem da filosofia “oficial” (Dante, Petrarca, Quintiliano, Cícero, Angelo Poliziano, Coluccio Salutati, Lorenzo Valla, Albertino Mussato, Leonardo Bruni e, principalmente, Giambattista Vico), Grassi defendeu a revalorização estri- tamente flosófica do pensamento humanista e, portanto, da literatura e da retórica como formas legítimas de especulação sobre o real.
PALAVRAS-CHAVE: Humanismo filosófico. Ernesto Grassi. Retórica.

RESUMEM:
El filósofo italiano Ernesto Grassi (1902-1991) propuso una visión particular con respecto al problema de la pa- labra en la historia de la filosofía. Después de revisar detenidamente una serie de pensadores que siempre han sido dejados al margen de la filosofía “oficial” (Dante, Petrarca, Quintiliano, Cícero, Leonardo Bruni y, principal- mente, Giambattista Vico), Grassi defendió la rehabilitación estrictamente filosófica del pensamiento humanista y, por lo tanto, de la literatura y de la retórica como formas legítimas de especulación sobre lo real.
PALABRAS-CLAVE: Humanismo filosófico. Ernesto Grassi. Retórica.

62

Fábula e invenção

Oliver Tolle

Universidade de São Paulo/FFLCH

RESUMO:
O objetivo do presente artigo é mostrar como a teoria da arte de Sulzer se encontra apoiada na caracterização das faculdades cognitivas, remontando, portanto, à psicologia empírica desenvolvida pela escola leibniziana. A partir dos conceitos de fábula e invenção fica claro que a criação poética depende mais de observação do que está dado do que de uma invenção em sentido propriamente dito, quer dizer, do ultrapassamento da natureza pelo espírito. Esse modo de colocar as coisas permite identificar a atividade criadora com a do leitor, que são igualmente movidos pelo desafio de reconhecer a articulação recíproca entre as diversas partes de um signifi- cado universal da natureza humana.
PALAVRAS-CHAVE: Fábula. Invenção. Poética. Psicologia empírica. Estética.

ABSTRACT:
The aim of this article is to show how Sulzer’s theory of art is based on the characterization of cognitive faculties, therefore referring to the empirical psychology developed by the Leibnizian school. From the concepts of fable and invention it is apparently clear that poetic creation depends more on observation of what is given than on an invention in the proper sense, that is, on the overcoming of nature by the spirit. This way of putting things allows us to identify creative activity with that of the reader, who are equally moved by the motivation of recognizing the reciprocal articulation between the various parts of a universal meaning of human nature.
KEYWORDS: Fable. Invention. Poetics. Empirical psychology. Aesthetics.

73

O gótico e os limites do iluminismo: o caso Wuthering heights

Marcos Fonseca Ribeiro Balieiro

Departamento de Filosofia/UFS

RESUMO:
Trata-se, em um primeiro momento, de examinar a obra O Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, com vistas a estabelecer os aspectos que permitem associá-la à tradição gótica. Em seguida, considerar-se-á de que maneira essa filiação permite que a obra em questão seja lida como uma tentativa de recusa não apenas do que veio a ser chamado de gótico feminino, mas também, principalmente, do modelo de sociabilidade estabelecido por parte da filosofia das luzes britânicas, notadamente no que diz respeito a aspectos como a polidez e o tratamento destinado às mulheres.
PALAVRAS-CHAVE: Gótico. Iluminismo. O Morro dos ventos uivantes.

ABSTRACT:
At first, we shall examine Wuthering heights, by Emily Brontë, in an attempt to determine the aspects which would authorize an association between the novel and the gothic tradition. Afterwards, we shall consider the ways in which this affiliation allow Wuthering Heights to be read as an attempt to refuse not only what came to be called the female gothic, but also, first and foremost, the model of sociability established by the British Enli- ghtenment, notably when it comes to points such as politeness and the place to be occupied by women.
KEYWORDS: Gothic. Enlightenment. Wuthering heights.

79

A presença da ideia de combate no teatro de Voltaire

Vladimir de Oliva Mota

Artes Visuais/Universidade Federal de Sergipe

RESUMO:
Parte-se, neste trabalho, do seguinte pressuposto: a ideia de combate articula os múltiplos gêneros literários trabalhados por Voltaire – cujo critério de escolha é o que, julga o filósofo, melhor se adequaria às circunstâncias da luta –, fazendo de sua obra um todo coerente; ao passo em que os fundamentos filosóficos daquela ideia lhe dão consistência. O combate em Voltaire é aqui entendido num duplo movimento: por um lado, como crítica e polêmica a tudo o que pareça um obstáculo ao bem-estar dos homens em sociedade: todas as formas de tirania, o dogma, a superstição, o fanatismo, a intolerância...; por outro, como divulgação de ideias de modo a contribuir para a reforma dos costumes, agindo sobre as paixões de seus leitores e espectadores, esclarecendo-os com o fim de frear o mal moral e em vista da civilização1. O que aqui se pretende é indicar a presença da ideia de combate no teatro de Voltaire, considerando esse gênero como a mais importante artilharia do seu arsenal de luta filosófica. Para tal, a dramaturgia voltairiana será considera em bloco e em períodos distintos da produção do filósofo, único meio de aproximação à compreensão do pensamento voltairiano.
PALAVRAS-CHAVE: Voltaire. Teatro. Combate. Filosofia.

RÉSUMÉ:
On part ici du postulat suivant: l’idée de combat articule les multiples genres littéraires de Voltaire – dont le critère de choix des genres est ce que le philosophe trouve le mieux adapté aux circonstances de la lutte –, cet idée donne à son travail de la cohérence; tandis que les fondements philosophiques de cet idée lui donnent de la consistance. La lutte de Voltaire se comprend ici dans un double mouvement: d’une part, comme critique et polémique à tout ce qui semble un obstacle au bien-être des hommes dans la société, c’est-à-dire toutes les formes de la tyrannie, du dogme, de la superstition, du fanatisme, de l’intolérance...; d’autre part, comme la diffusion des idées à contribuer à la réforme des mœurs, qui agissent sur les passions de ses lecteurs et de ses spectateurs, en les éclaircissant pour enrayer le mal moral vers la civilisation. Le but ici est d’indiquer la présence de l’idée de combat dans le théâtre de Voltaire, considérant ce genre comme l’artillerie la plus importante dans son arsenal de lutte philosophique. Pour cela, la dramaturgie de Voltaire sera considérée en bloc et dans différentes périodes de la production du philosophe, le seul moyen d’approche à la compréhension de la pensée voltairianne.
MOTS-CLÉ: Voltaire. Théâtre. Combat. Philosophie.

85

Poética do drama e esclarecimento: Diderot, teatro e educação

Christine Arndt de Santana

Universidade Federal de Sergipe/Teatro/UFS

RESUMO:
No século XVIII francês, o homem esclarecido é aquele instruído nas ciências e dotado de valores morais que o orientem em suas ações; ou seja, espera-se que neste homem esclarecido sejam unificadas as qualidades do sábio (esclarecido) e do bom (virtuoso). Diderot, ao pensar sobre o Esclarecimento e em como alcançá-lo, en- tende que o teatro possui um poder pedagógico eficaz pois possibilita consolidar uma educação estética capaz de unificar as duas qualidades descritas. Neste sentido, este trabalho pretende demonstrar a necessidade de se entender o drama como um istrumento eficaz na formação do ideal humano em Diderot, compreendendo que este ideal somente é possível estabelecendo a junção entre o sábio e o bom e expondo que a reforma didero- tiana proposta ao drama foi elaborada para que o teatro pudesse ser um instrumento eficaz na formação deste homem que se espera esclarecer, ao tornar a arte da representação mais próxima da “verdade da natureza”, ou seja, ao indicar mudanças que tornam a cena mais realista, mais próxima dos espectadores. No que diz respeito justamente à mise en scène, o realismo ambicionava a criação do que Diderot chamara de tragédia doméstica e burguesa, gênero novo, que seria capaz de encaminhar o homem ao Esclarecimento via uma educação estética.
PALAVRAS-CHAVE: Diderot. Poética. Drama. Teatro. Educação.

RÉSUMÉ:
Au XVIIIe siècle français, l’homme éclairé est instruit dans les sciences et doté de valeurs morales qui orientent ses actions; c’est-à-dire que l’on attend que chez cet homme éclairé soient unies les qualités du sage (éclairé) et du bon (vertueux). Lorsque Diderot réfléchit sur les Lumières et sur les manières pour y arriver, il entend que le théâtre possède un pouvoir pédagogique efficace car il offre la possibilité de consolider une éducation esthétique capable de réunir ces deux qualités. En ce sens, cette communication a l’objectif de démontrer la nécessité de comprendre le drame comme un instrument efficace dans la formation de l’idéal humain selon Diderot, sans négliger le fait que cet idéal n’est possible qu’à partir de la jonction du sage et du bon, et que la réforme diderotienne proposée au drame a été élaborée pour que le théâtre puisse être un instrument efficace dans la formation de cet homme que l’on souhaite éclairer à travers le rapprochement entre l’art et la “vérité de la nature” – autrement dit, en indiquant les changements qui rendent la scène plus réaliste, plus proche des spectateurs. Concernant justement la mise en scène, le réalisme avait comme ambition la création de ce que Diderot appelait la tragédie domestique et bourgeoise, genre nouveau qui acheminerait l’homme aux Lumières via une éducation esthétique.
MOTS-CLÉ: Diderot. Poétique. Drame. Théâtre. Éducation.

94

Poéticas do cômico na literatura brasileira do século XIX:
zombaria, malandragem, ironia

Jacqueline Ramos

Universidade Federal de Sergipe/Letras-Ita

RESUMO:
Na produção literária brasileira do século XIX, há modos diversos da comicidade, que implicam em distintas concepções e funcionalidades do cômico. A vasta produção de comédias de costumes vale-se da ridicularização. A zombaria, sempre com certa carga de agressão, é tomada aqui, naquele sentido descrito por Bergson de reprimir desvios comportamentais visando a uma maior coesão social. Caso único, mas não menos importante, é Memórias de um Sargento de milícias, cuja neopicaresca apresenta a malandragem como estruturante da sociedade brasileira. Finalmente, com Machado de Assis temos o aproveitamento da sátira menipéia e da tradição luciânica, que vincula o cômico ao filosófico, sendo percebida em suas comédias, romances e crônicas1.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura brasileira. Modos do cômico. Zombaria. Malandragem.

ABSTRACT:
In the Brazilian literary production of the nineteenth century, there are different modes of comedy, which imply different conceptions and functionalities of the comic. The large production of comedies of customs is based on ridicularization. Mockery, always with a certain amount of aggression, is used as described by Bergson: a way of repressing behavioral deviations in order to get greater social cohesion. A unique but not less important case is Memories of a sergeant of militias, whose neopicaresca presents malandragem as structuring of Brazilian society. Finally, Machado de Assis brought to our literature the menipean satire and lucianic tradition, which links the comic to the philosophical, present in his comedies, novels and chronicles.
KEYWORDS: Brazilian literature. Modes of the comic. Mockery. Trickery. Irony.

102

A poética cômica de Aristófanes nas Dionísias de Acarnenses

Ana Maria César Pompeu

Núcleo de Cultura Clássica – DLE – UFC

RESUMO:
Nossa pesquisa pretende estabelecer uma poética da comédia antiga grega, através do próprio comediógrafo Aristófanes, único representante do gênero, na fase mencionada, de quem temos peças completas, que antecipa a filosofia platônico-aristotélica em conceitos fundamentais acerca do fazer poético. A investigação se faz, primeiro, pela demonstração de que a comédia Acarnenses é o paradigma da comédia antiga aristofânica. Apresentamos então a gênese da comédia pela paródia de um canto fálico, na celebração das Dionísias Rurais, pela paz recém-adquirida por Diceópolis. Agradecemos o apoio do CNPq-Universal, Processo: 458142/2014-0.
PALAVRAS-CHAVE: Poética. Comédia. Aristófanes. Acarnenses.

ABSTRACT:
Our research aims to establish a poetics of ancient Greek comedy, through the comic poet Aristophanes, the only representative of the genre, in the mentioned phase, of whom we have complete plays, that anticipates the Platonic-Aristotelian philosophy in fundamental concepts about the poetic making. The investigation is done, first, by the demonstration that the comedy Acharnians is the paradigm of the old aristophanic comedy. We then present the genesis of comedy by the parody of a phallic song, in the celebration of the Rural Dionysias, for the peace recently acquired by Diceopolis. We appreciate the support of CNPq-Universal, Process: 458142/2014-0.
KEYWORDS: Poetics. Comedy. Aristophanes. Acharnians.

113

O furor de Hipólito na Phaedra de Sêneca

Tereza Pereira do Carmo

Universidade Federal da Bahia/ILUFBA

RESUMO:
Apresentaremos neste trabalho algumas notas para um estudo do discurso de Hipólito em Phaedra, do tragediógrafo romano Sêneca. Partindo do estoicismo que trabalha com a ideia de paixão como doença intelectual que priva a alma da saúde, pois uma alma saudável é uma alma racional, apontaremos para a presença do irracional na personagem Hipólito tendo o furor presente em suas palavras e ações. A partir da análise da personagem queremos mostrar que Sêneca aproveita o abandono da razão pela paixão como um erro de julgamento que contradiz a proposta estoica. Para Sêneca todos os homens estão sujeitos à paixão, mas deixar-se dominar pelo pathos, pelo irracional tem consequências funestas. Hipólito, mesmo considerando degradante a vida na cidade e no palácio e preferindo viver junto à natureza, deixa-se dominar pela paixão, perde a razão diante das adversidades e o furor que o domina tem como a consequência a catástrofe. Dessa forma, Sêneca apresenta, na tragédia os malefícios das paixões e, assim, o tragediógrafo e o filósofo se complementam.
PALAVRAS-CHAVE: Sêneca. Estoicismo. Furor. Hipólito.

RESUMEM:
Mi contribución para la discusión propuesta en este foro es presentar algunas notas para un estudio del discurso de Hipólito en Phaedra, del tragediógrafo romano Séneca. Partiendo del estoicismo, en el cual la idea de pasión corresponde a una enfermedad intelectual que despoja el alma de la salud, ya que un alma saludable es un alma racional, apuntaremos para la presencia de lo irracional en el personaje Hipólito considerando el furor presente en sus palabras y acciones. A partir del análisis del personaje queremos enseñar que Séneca se vale del aban- dono de la razón por la pasión como un error del juzgamiento que contradice la propuesta estoica. Para Séneca todos los hombres están sometidos a la pasión, pero dejarse dominar por el pathos, por lo irracional trae consecuencias funestas. Hipólito, aunque considerando indigna la vida en la ciudad y en el palacio y prefiriendo vivir junto a la naturaleza, se deja dominar por la pasión, pierde la razón delante de las adversidades y el furor que lo domina tiene como consecuencia la catástrofe. Así, Séneca enseña los maleficios de la pasión en la tragedia y, de esa manera, el tragediógrafo y el filósofo se complementan.
PALABRAS-CLAVE: Séneca. Estoicismo. Furor. Hipólito.

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O espaço-tempo do herói grego

Orlando Luiz de Araújo

Núcleo de Cultura Clássica – DLE – UFC

RESUMO:
Era próprio dos heróis da Grécia arcaica e clássica não descurarem da sua condição honrosa, tampouco de questionarem o seu papel na guerra, na cidade, nas práticas sociais, como entrevemos, por exemplo, nos poemas épicos de Homero, Ilíada e Odisseia. A despeito de, aparentemente, pouco problemático, e fácil de definir, o herói se esconde sob muitas máscaras, o que torna pertinente a pergunta o que é um herói grego. Seguindo o desenvolvimento do gênero na Grécia, buscamos definir o que seria um herói. Para isto, usamos como fontes os poemas homéricos, a poesia lírica de Tirteu e o teatro, especialmente, de Sófocles. O herói grego, visto como uma potência integrada à coletividade, será abordado na sua relação com o espaço e os objetos (o acampamento de guerra, o escudo, o palácio etc.), que o constituem enquanto tal, e com o tempo a (i)mortalidade, o cotidiano etc.).
PALAVRAS-CHAVE: Herói. Épico. Lírico. Dramático.

ABSTRACT:
The heroes of archaic and classical Greece do not neglect their honorable condition, nor question their role in war, in the city or in social practices, as we see, for example, in the epic poems of Homer, Iliad and Odyssey. Despite seemingly little problematic, and easy to define, the hero hides under many masks, which makes pertinent the question what a Greek hero? Following the development of the literary genre in Greece, we sought to define what would be a hero. For this, we use as sources the Homeric poems, lyric poetry of Tyrtaeus and the theater of Sophocles. The Greek hero, seen as a power integrated to the collective, will be approached in his relation with space, objects, and with time.
KEYWORDS: Hero. Epic. Lyrical. Dramatic.

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