A Palo Seco, N. 3, 2011 - Escritos de Filosofia e Literatura 


A Palo Seco - N.11

A Palo Seco 2019
chamada para publicação

A partir desse ano de 2019,
A Palo Seco adotou o sistema de submissão em fluxo contínuo. Para o número de 2019 serão avaliados os artigos e traduções encaminhados até o dia 30 de junho de 2019.

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 3, N. 3, 2011
Escritos de Filosofia e Literatura: “Fronteiras”


CONSELHO EDITORIAL

Celso Donizete Cruz
Cicero Cunha Bezerra
Dominique M. P. G. Boxus
Eduardo Gomes de Siqueira
Fabian Jorge Piñeyro
Jacqueline Ramos
Luciene Lages Silva
Maria Cristina Blink
Maria Roseneide Santana dos Santos
Oliver Tolle
Romero Junior Venancio Silva
Sílvia Faustino de Assis Saes


EDITORIA e EDITORAÇÃO
Celso Cruz
Jacqueline Ramos


Sumário

Apresentação

Celso Donizete Cruz

A filosofia não deixa de ser filosofia tornando-se poética, nem a poesia deixa de ser poesia
tornando-se filosófica. Uma polariza a outra sem assimilação transformadora.
Benedito Nunes

 

 

Este terceiro número de A Palo Seco reúne textos apresentados no II Colóquio Filosofia e Literatura, que sob o tema “Fronteiras” foi organizado por nosso grupo de pesquisa, o GeFeLit, e ocorreu em outubro de 2010, na Universidade Federal de Sergipe. A intenção, como outros eventos de mesma natureza, foi reunir pesquisadores afins, os quais são os próprios membros do GeFeLit, mais interessados e convidados, para a conversa, a discussão, a tertúlia, o congraçamento, oportunidades de afinar os ponteiros, principalmente para os que já são do grupo, e de mostrar o que se faz, o que se fez e o que pode ser feito a partir do encontro fecundo de duas grandes disciplinas. Essas metas na certa foram cumpridas, e este número da revista é ainda outro dos desdobramentos do evento.

Além das atividades, por assim dizer, mais rotineiras, caso das palestras e comunicações, que proporcionam as tais oportunidades de contato entre os pesquisadores, quisemos também que o encontro fosse uma homenagem a Benedito Nunes, notoriamente reconhecido pela promoção sistemática da aproximação de literatura e filosofia, plano de fundo de nossas pesquisas. De modo que, inicialmente, previmos que a conferência de abertura fosse proferida por ele, e o convidamos, e tivemos a honra de ter nosso convite aceito. Infelizmente, porém, por ocasião de confirmação das passagens, sua visita a Sergipe teve de ser postergada, por problemas de saúde. Houve tempo para rearranjos, e mantivemos a homenagem, dedicando uma das noites à leitura de um texto expressamente enviado por ele para a ocasião, e a um debate em torno de sua obra. Só não imaginávamos que dali a poucos meses, enquanto organizávamos a publicação dos textos do Colóquio, teríamos a notícia de seu pesaroso falecimento.

A obra de Nunes é e sempre foi uma fonte de inspiração para os trabalhos do grupo. Assim se justifica esta homenagem. Que se fez em vida, no Colóquio, e se faz póstuma agora, no periódico, com a reprodu- ção dos textos dessa noite especial. Medra, entre o acontecimento e sua documentação, o interstício de uma passagem fatal. É esse também um tipo de fronteira, aquela que – quem sabe? – não se ultrapassará mais de uma vez...

Mas as fronteiras que delimitam filosofia e literatura não possuirão aduana tão implacável. Serão talvez rigorosas, ou ríspidas, ou mais ligeiras, maleáveis, a depender do enfoque. O próprio Benedito Nunes reconhece, não a transformação de uma disciplina em outra, e sim a polarização de uma pela outra (de uma com a outra, idealmente), como se observa na epígrafe desta apresentação. Quer dizer, as fronteiras são franqueadas, porém mantidas. Ocorrerão penetrações, sem dúvida. Relações de hierarquia e submissão, provavelmente. É tal e qual uma relação entre corpos, e daí a boa sacada do texto enviado por Nunes, que abre este número de nossa revista: “Poesia e filosofia: uma transa”.

Uma transa! Repleta de oferecimentos e negaças, com certeza. E de longa data, desde os pré-socráticos, ou seja, desde sempre – essa tensão (esse tesão) entre poetas e filósofos, entre artistas e pensadores. É essa relação que Benedito Nunes acompanha pari passu, atravessando a história das ideias e das letras, com especial menção aos momentos de contato mais íntimo, de aventuras extradisciplinares. O panorama firmado como que descortina a tradição desse contato. Dá um sentido histórico e ao mesmo tempo um incentivo à frequentação de uma disciplina pela outra. (Pode-se dizer que respondemos positivamente a esse estímulo “transacional”, retomando a relação entre as partes, e a consciência dessa relação, de forma a manter acesa a chama que Nunes alimentou ao longo de toda sua rica trajetória intelectual que afinal confunde-se com sua própria vida, que é sua vida, e que seguirá existindo, não temos dúvida, por sobre a inelutável finitude do homem).

Tal como ocorreu na noite do evento, segue-se na revista o texto “Benedito Nunes, filósofo da literatura”, de Victor Sales Pinheiro, que já há algum tempo vem se dedicando à organização e edição da obra do emérito professor paraense. Victor nos apresenta o itinerário crítico de Benedito Nunes, desde a infância, com sua paixão pelos livros, e depois o contato com os intelectuais da região, com a literatura feita no Pará, os primeiros artigos publicados, os primeiros ensaios, e assim por diante. Também comenta as várias facetas de sua produção ensaística, que transita na fronteira entre a crítica literária e a filosofia. Como exemplo dessa crítica particular de Nunes, somos remetido ao caso (leia-se transa) com a obra de Guimarães Rosa, quando temos, ao lado de um texto poético prenhe de filosofia, um texto de crítica filosófica que tende ao poético. Sales Pinheiro nos traz os detalhes dessa exemplar e fértil relação.

A Jucimara Tarricone coube o papel de fomentar o debate, na noite de homenagem a Nunes. Jucimara é autora da tese (no prelo) Hermenêutica e crítica: o pensamento e a obra de Benedito Nunes, defendida no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, e seu texto, “O perfil da linguagem crítica de Benedito Nunes”, foi pensado como contraponto à exposição anterior, de Sales Pinheiro. Seus comentários vão explorar dois aspectos que são complementares na busca por uma possível determinação da “dinâmica da leitura hermenêutica de Benedito Nunes”: interessa a Tarricone o modo como Nunes analisa o “fenômeno literário”, bem como o modo como “constrói seu discurso crítico”. São esses os dois eixos principais a orientar a discussão a respeito da crítica filosófica de Nunes.

Com esses três primeiros textos, fecha-se a homenagem formal, mas o exemplo do mestre paraense segue sendo inspirador nas demais contribuições, que resultam das outras sessões de nosso II Colóquio. Correspondem às palestras de pesquisadores do GeFeLit e convidados. O espírito de fronteira permanece, com todos de algum modo transitando entre dois mundos, e é dessa circulação que temos os relatos.

Cicero Cunha Bezerra, leitor dos neoplatônicos, investiga em “Neoplatonismo, mística e poesia: do dizível ao indizível” as relações entre mística e poesia. Seu ponto de partida é a crença de que “a filosofia e a literatura compartilham de uma mesma tarefa, a saber: revelar, mediante as metáforas e os simbolismos, a existência de uma ordem do mundo que não se deixa abarcar, precisamente, por nenhuma inteligibilidade”. O neoplatonismo é um contexto perfeito para a verificação dessa concepção, se não for mesmo o berço de tal pensamento. Como nos ensina Cicero, com o neoplatonismo a poesia é reabilitada, e ganha “estatuto de representação daquilo que supera toda representação”. Também a mística, nesse sentido, vem a ser tomada como forma de conhecimento, e mais: o conhecimento que se obtém, nas operações tanto da mística quanto da poesia, é o que se faz a contrapelo do logos, é como que o negativo da razão. Por isso a busca do indizível, do que está além da fronteira do logos, pode vir a ser o imperativo nessas duas formas de desuso da razão.

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz investiga a memória, seu principal tema de pesquisa e assunto central do texto que propôs ao Colóquio, “A escritura da memória enquanto fundamento identitário do eu”. As reflexões de Japiassú possuem como base uma “assertiva axiomática”: a afirmação de que a memória é “o princípio da unidade e continuidade do ser, base da personalidade individual”. É o passado, afinal, que dá “sentido à subjetividade”. Em torno desse mote, temos o desenrolar de uma tradição de pensamento sobre a memória, ou seja, de uma filosofia da memória, com destaque para as ideias de Bergson. Uma vez assentados os marcos de uma tal filosofia, não se parte para a análise, porém para a criação de um texto memorialístico – assim comparecem, lado a lado, uma filosofia e uma literatura da memória. Até que ponto elas se contaminam, é tarefa ainda a deslindar.

Quem também se vale da filosofia na determinação de seu objeto de estudo é Jacqueline Ramos, pesquisadora das artes do cômico. Em “O boné do bufão: comicidade e conhecimento”, o mesmo Bergson é forte referência teórica, ao lado de Freud e outros pensadores que já toparam encarar o riso a sério. Para além da teoria, temos a identificação de uma modalidade peculiar, qual seja, “o cômico como procedimento”, detectada de modo exemplar em Tutaméia, de Guimarães Rosa. Conforme Rosa demonstra em um dos prefácios dessa obra, desprovido de seus elementos risíveis, restará do cômico um modelo de estrutura que pode dar acesso a “mágicos novos sistemas de pensamento”. Dessa perspectiva, essa notável obra da literatura brasileira explorará as potencialidades de uma espécie de forma às avessas (o nada que é tudo), para a descoberta, tanto de novos enredos e modos de narrar, quanto de novos métodos de pensar. De fato, uma solução criativa como forma de exploração das relações possíveis entre literatura e filosofia.

“Dissensos da pós-modernidade”, de Maria Aparecida Antunes de Macedo, alude ao debate que se instala no mundo acadêmico toda vez que esse mo(vi)mento(?) histórico(?) vem à baila. Antunes não pretende esgotar a polêmica, pelo contrário, lembra que a pós-modernidade se caracteriza justamente por “sua natureza ‘dissensual’”. Nada mais adequado, portanto, do que confrontar duas visões diferentes sobre o fenômeno. E é este o objetivo desse texto: “ilustrar posições distintas [sobre a pós-modernidade] de dois pensadores que são Jürgen Habermas e Jean-François Lyotard”. Esses dois pensadores polarizam a discussão acadêmica em torno do tema, por isso acompanhar os pontos divergentes de suas concepções é se situar de pronto no coração da polêmica. E assim temos delineados com clareza os marcos principais da discussão, preparando o terreno para novas intervenções.

Também prepara o terreno Dominique M. P. G. Boxus, em “Discurso e interdiscurso: a tradução da filosofia na literatura e nas artes”, que nos apresenta sua proposta – o “espírito” e o “projeto” – de disciplina para um aguardado curso de especialização em filosofia e literatura. São mencionados seus principais interesses de pesquisa, estabelecidos a partir de sua experiência profissional e seus compromissos de vida. O fato de ser belga, francófono, e morar no Brasil faz com que nunca se sinta totalmente em casa com a língua que utiliza. É o tempo todo tomado por uma necessidade de tradução como forma de supera- ção de fronteiras. Por isso, certamente, “a problemática das fronteiras – e das identidades que elas visam a definir – ocupa todo o espaço” das ocupações acadêmicas de Boxus. Há ao mesmo tempo a vontade de expansão do conceito de tradução, donde a noção de “interdiscurso”, que será acionada, ao lado de ou- tras, como “transcriação” e “transformação”. Aquilo que está para além (“trans”), bem como o que está no meio (“inter”), antes que as identidades se definam – diríamos que é esse “entrelugar” (esse “intermundo”) que Dominique propõe frequentar (e traduzir), no diálogo que como literato entabula com a filosofia.

Já no texto a seguir, “Peirce e o método dos detetives”, Sergio Hugo Menna, especialista em questões de lógica e teoria do conhecimento, irá demonstrar um modo de relacionamento possível da filosofia com a literatura. De um lado temos os estudos de Peirce, mais especificamente a proposição de seu “método abdutivo”, método de construção de hipóteses plausíveis para a solução de problemas ou enigmas. De outro lado, estão os detetives policiais, não só os dos livros, os do cinema também, sem esquecer os novos heróis das séries de TV. Menna repara que esses investigadores nada mais fazem do que aplicar a abdução (que chamam de dedução) para resolver seus mistérios. Elementar. Como exemplo, realiza-se a análise de um episódio de Sherlock Holmes. Conclui-se que o método desenvolvido por Peirce permite avaliar com maior consistência a performance dos detetives da ficção.

Por fim, fechando a revista, temos a contribuição de Fabian Pineyro, “Realidade e ficção e ensaio e conto em Borges”. Fabian, formado em letras e com mestrado em sociologia, é um desses leitores irrecuperáveis de Borges. Ao comentar dois famosos relatos do inigualável escritor argentino, chama a atenção para a inversão dos gêneros textuais operada nesses textos. Onde se espera o ensaio, ou seja, o texto sério, científico, voltado para a realidade, encontra-se o conto, a pura invenção literária. E vice-versa. Embaralhar as fronteiras é uma estratégia da ficção borgiana, mas não só. A dissolução da tradicional tipologia dos textos teria também o condão de sugerir a verdadeira ficção que existe como sustentáculo de nossa noção de realidade.

Aí se encerra este novo número de A Palo Seco, súmula e radiografia do que houve em nosso II Colóquio. Fica a expectativa de que o contato entre as fronteiras continue aquecido, aguçando os sentidos de uma transa sem igual.

Celso Donizete Cruz

4

Poesia e filosofia: uma transa

Benedito Nunes



8

Benedito Nunes, filósofo da literatura

Victor Sales Pinheiro

Doutorando em Filosofia pela UERJ



18

O perfil da linguagem crítica de Benedito Nunes

Jucimara Tarricone

Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP



28

Neoplatonismo, mística e poesia: do dizível ao indizível

Cicero Cunha Bezerra

Departamento de Filosofia/UFS



36

A escritura da memória enquanto fundamento identitário do eu

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz

Departamento de Letras Vernáculas/UFS



40

O boné do bufão: comicidade e conhecimento

Jacqueline Ramos

Departamento de Letras de Itabaiana/UFS



51

Dissensos da pós-modernidade

Maria Aparecida Antunes de Macedo

Departamento de Línguas Estrangeiras/UFS



57

Discurso e interdiscurso: a tradução da filosofia na literatura e nas artes

Dominique M. P. G. Boxus

Departamento de Línguas Estrangeiras/UFS



66

Peirce e o método dos detetives

Sergio Hugo Menna

Departamento de Filosofia/UFS



70

Realidade e ficção e ensaio e conto em Borges

Fabian Pineyro

Graduado em Letras Espanhol, Mestre em Ciências Sociais (UFS)
Professor de Literatura Faculdade Pio Décimo e UFS.



77

Bases indexadoras:

Entrar no sistema

Criar conta? Esqueceu a senha?
Criar nova conta
Concordo com os Termos de serviço!
Fazer login? Esqueceu a senha?
Recuperar senha

Fazer login? Criar conta?