A Palo Seco, N. 4, 2012 - Escritos de Filosofia e Literatura 


A Palo Seco 2018
chamada para publicação

Artigos e traduções inédita de textos filosóficos ou literários devem ser submetidos até 15 de julho de 2018

A Palo Seco - N.10

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 4, N. 4, 2012
Escritos de Filosofia e Literatura


CONSELHO EDITORIAL

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz
Cicero Cunha Bezerra
Eduardo Gomes de Siqueira
Jacqueline Ramos
Luciene Lages Silva
Maria Roseneide Santana dos Santos
Romero Junior Venancio Silva
Tarik de Athayde Prata
Celso Donizete Cruz
Dominique M. P. G. Boxus
Fabian Jorge Piñeyro
José Amarante Santos Sobrinho
Maria Aparecida Antunes de Macedo
Oliver Tolle
Sílvia Faustino de Assis Saes
Ulisses Neves Rafael


EDITORIA
Celso Cruz
Maria A. A. de Macedo


PAGINAÇÃO e REVISÃO
Celso Cruz


IMAGEM DA CAPA
"O beijo", de Constantin Brancusi

Sumário

Apresentação

Celso Cruz
Maria A. A. de Macedo

Com este novo número de nosso periódico, reafirmam-se as tentativas de aproximação das duas principais áreas que estudamos. Lembramos que o GeFeLit – Grupo de Estudos em Filosofia e Literatura, responsável por esta revista, congrega professores e pesquisadores que buscam franquear ou frequentar as fronteiras de suas respectivas disciplinas, num flerte contínuo que vem se consolidando em uma relação de livre e mútua exploração. Já colocávamos, por ocasião do primeiro número, que víamos os limites entre literatura e filosofia como um problema não solucionado, e o caso é que este é de fato continuamente reproposto em nossas discussões. Independente de sua solução, porém, a qual não é necessariamente a preocupação principal, segue o trânsito entre fronteiras e nos limites, com resultados apreciáveis para ambos os lados.

Assim, a pesquisa interdisciplinar se realiza sem precisar a todo momento esclarecer se o que se faz é filosofia ou literatura. Estudam-se obras literárias e filosóficas na expectativa do esclarecimento de umas pelas outras. Em uma escala mais simples e mais comum do estudo da relação entre ambas, apontam-se certos conceitos construídos na filosofia, e procura-se interpretar o texto literário a partir deles. Exemplos desse tipo podem passar como simples crítica literária, contudo, o apoio filosófico é capaz de revelar não só as potencialidades de instrumentalização da filosofia para o estudo da literatura; revela também a literatura como campo de provas, de experimentação, onde verdades são colocadas em movimento, sem a necessidade de serem comprovadas. Num ponto mais extremo, temos os textos considerados, à primeira vista, tão-somente literários, mas que fomentam a plasticidade de suas fronteiras, em particular com a filosofia, já que em uma leitura mais atenta observamos a construção de um pensamento filosófico, não suamerareconstrução.

Outros tipos de relacionamento podem ser imaginados ou entabulados. Benedito Nunes, publicado em nosso número anterior, já explorou em teoria – e na prática – as potencialidades desse contato interdisciplinar. Outro teórico mais contemporâneo, o francês Alain Badiou, pensando numa relação de complementaridade da filosofia com a arte, igualmente prevê possibilidades de interpenetração extensíveis à relação da filosofia com a literatura. Um exemplo interessante que ele oferece para esclarecer a natureza dessa relação resgata a analogia do Mestre e do Histérico, formulada por Lacan. O Histérico afirma ao Mestre que a verdade fala por sua boca, ao mesmo tempo o interroga sobre o saber que o Mestre tem a seu respeito. Assim a arte (o Histérico) sempre se apresenta ao filósofo (o Mestre) como uma pergunta silenciosa sobre o seu ser.

Seja, pois, a literatura, a fonte de uma verdade que desconhece sua verdadeira constituição, que se explicita na transa com a filosofia. Daí a procura de uma pela outra. Os momentos de embaraço, no sentido de embaralhamento, vão atiçar a curiosidade, ademais de enriquecer o estudo, de um e de outro lado, e podem levar a uma grande satisfação. Há algo que compensa nessa busca. E os textos que compõem o presente volume o comprovam.

O instigante artigo de Bernardete Oliveira Marantes, “A Albertine de Proust como pura tradução da hecceidade deleuze-guattariana”, reflete sobre o conceito de hecceidade, desenvolvido por Deleuze e Guattari para dar conta de uma “individuação sem sujeito” ou de uma “individuação impessoal”. A partir da noção de hecceidade chega-se a uma nova concepção de sujeito, não mais visto como unidade, porém como multiplicidade, não “feito de profundezas, mas de intensidades, de forças que estão na superfície”, “sujeito destituído de essência, unidade, ou universalidade”. Vê-se nessa nova concepção uma clara tentativa de superação do idealismo metafísico, abrindo novos horizontes à reflexão, uma conquista da filosofia de Gilles Deleuze. O artigo de Marantes reafirma essa conquista, referindo as origens e os principais temas do pensamento desse filósofo, acompanhando suas transformações antes e depois do fecundo encontro com o também filósofo, e ademais psicanalista, Felix Guattari.

Mas não é apenas o contato com a psicanálise que provoca o pensador francês. Ganham maior desta- que nesse artigo suas relações com Proust. O conceito de hecceidade vem a ser oportuno no caso porque a sua “mais completa tradução” é identificada ao “bando de moças” liderado pela personagem da Recherche Albertine, cuja descrição é tida como um momento de “pura hecceidade”. Aqui se recorre à literatura para a ilustração de um conceito filosófico, mas não apenas isso. Na “nova maneira de pensar” perseguida por Deleuze & Guattari, à literatura e às artes em geral reserva-se um papel fundamental, seja como fontes de insights, seja como modos promissores de compreensão da realidade humana. Bernardete Marantes estende a estratégia deleuze-guattariana, investigando a hecceidade de Albertine fora do bando, o que por um lado nos revela outras formas dessa individuação sem sujeito, e por outro reafirma a felicidade do encontro de dois modos possíveis de conhecimento.

Outro episódio interessante surgido do contato da filosofia com a literatura é apresentado no artigo de Daniel Teixeira da Costa Araujo, “Heidegger e sua apropriação filosófica de Hölderlin”. A discussão do aspecto político envolvido na formação dos cânones traz como exemplo a poesia de Friedrich Hölderlin, “apropriada filosoficamente” pelo filósofo Martin Heidegger, cujo gesto “parece ter concedido à obra do poeta a visibilidade necessária para que viesse a fazer parte do cânone literário”, de modo que a “redescoberta” de Hölderlin “deveu-se antes à filosofia que à crítica literária”. Além dessa clara demonstração da intervenção da filosofia em questões literárias, Araujo expõe e critica a leitura heideggeriana do poeta. O modo como o filósofo aborda a poesia tem suas particularidades, e pode ser distinguido do modo de abordagem próprio da crítica literária. É uma das razões que levam a falar de “apropriação”, uma vez que a interpretação heideggeriana não contribui tanto para a compreensão literária da obra do poeta e sim mais para configuração de sua própria filosofia.

Nessa apropriação, a poesia se torna responsável pela revelação da verdade. Para essa perspectiva, existe uma verdade que se manifesta poeticamente, cabendo à filosofia detectá-la e liberá-la. Tal seria um dos intuitos do seminário em que Heidegger interpreta o poema “Germânia”, de Hölderlin. O filósofo tem um objetivo explícito: ultrapassar o poema “como simples texto de leitura neutra para atingir a esfera de potência da poesia e assim escapar à banalidade do cotidiano”. Aqui se percebe que não é a “fruição estética” a preocupação, e sim o “desvelamento da questão da verdade do Ser”. A interpretação de Heidegger exemplifica um dos modos como a poesia pode ser refletida no espelho da filosofia, e Daniel Araujo alerta também para o risco, nesse caso, de destruição do poético, possível consequência do método interpretativo do filósofo alemão. Independente da validade da leitura extremamente singular que faz do poema, entretanto, o exemplo de Heidegger é sem dúvida mais uma confirmação das potencialidades de um relacionamento estreito entre literatura e filosofia.

O terceiro artigo, “O riso de Demócrito na tradição literária”, de Francisco Jose da Silva, mapeia as referências ao riso de Demócrito em algumas obras da tradição literário-filosófica da Antiguidade e da Idade Moderna. A iniciativa do mapeamento liga-se à convicção de que exista um “riso filosófico” cujas características demandam ainda descrição e estudo. O texto de Silva representa um primeiro passo no sentido de suprir essa demanda, mas além disso surge em momento bastante oportuno, em que o GeFeLit organiza, para 2013, o seu III Colóquio, que terá justamente o cômico como tema. Muita coincidência? Talvez um sinal da pertinência temática, ligeira antecipação do que em breve nos aguarda: “amuse-bouche”. Tal coincidência só vem a legitimar ainda mais a proposta de pesquisa de Silva, pois o estudo do modo como os filósofos são aludidos ou incorporados em obras literárias não deixa de ser uma forma de atuar na interface que elegemos como objeto principal.

Esses três primeiros artigos são contribuições de membros externos ao nosso Grupo de Estudos, as quais vêm a reafirmar mais uma vez nossa disposição para o diálogo com os pesquisadores voltados à mesma direção interdisciplinar, estejam onde estiverem. Já os textos seguintes pertencem a membros do GeFeLit. Dois deles tratam de questões cujo encaminhamento pode auxiliar a definir bases propícias à aproximação de filosofia e literatura. O curioso nesse caso é que são dois professores de literatura que se voltam para a interpretação de problemas, textos e autores comumente referidos numa tradição de estudos filosóficos.

Maria A. A. de Macedo, no artigo “Michel Foucault no contexto da pós-modernidade: prólogo para uma teoria literária”, revisita a obra do filósofo francês com especial atenção ao papel que desempenha no esforço de constituição da pós-modernidade – esta destronando o sujeito do discurso e apontando um estudo que se coadune com um certo grau de despersonalização do texto, que será de certa forma o que os estudos intertextuais irão se propor. Localizando a problemática do sujeito no discurso em Foucault, Macedo pontua algumas de suas teorias que a ilustram e posteriormente elenca alguns teóricos que assinalam a importância do pensador francês na formação das teorias da pós-modernidade. Significativo que boa parte dos esforços de Foucault tenham se concentrado na desconstrução da noção de sujeito típica do projeto iluminista de racionalidade. Se considerarmos que é contra essa mesma sobredeterminação que se volta o pensamento de Deleuze & Guattari, como se vê no texto de Marantes, começamos a reunir elementos que sugerem a necessidade de rompimento com o ponto de vista convencional – de base essencialista – para que as fronteiras interdisciplinares possam ser franqueadas.

Outra contribuição de base nesse mesmo sentido é dada pelo texto de Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz, “A percepção como valor epistemológico na Fenomenologia da percepção de Maurice Merleau-Ponty”. O ponto de partida é a análise do conceito de fenomenologia desenvolvido por Edmundo Husserl. Chega-se, com base nessa fenomenologia, a uma ideia de consciência que se quer distinta da noção cartesiana e idealista. Husserl não aceita que a consciência tenha existência isolada, defendendo que ela está sempre ligada ao mundo exterior. Isso quer dizer que, na fenomenologia husserliana, o sujeito só existe à medida que se estende para o objeto. Essência e aparência também não existem em separado, seriam como que os dois lados de uma mesma moeda.

Essa proposta da fenomenologia de Husserl, de superação do estatuto do sujeito cartesiano, será reto- mada por Maurice Merleau-Ponty. Como assinalado há pouco, a ruptura com o projeto idealista aparenta ser o corolário indispensável aos que se aplicam a investigações de natureza interdisciplinar. Merleau-Ponty ajuda a superar a concepção idealista de sujeito com a noção de corpo. O corpo encarna o “consciente sensível”. A ideia de corpo expande a noção convencional de consciência, também estendendo o sujeito na direção do objeto. O sujeito vem a se constituir no momento em que constitui o objeto. A ênfase no corpo leva ao “descentramento do lugar tomado pela mente-consciência como origem e foco das preocupações do pensamento filosófico, escolhendo, antes, o Corpo como centro dominante de nossas propriedades percipientes”. Quer dizer, não é só a consciência que percebe, e mais: “Nós não só percebemos com o corpo, como também pensamos com ele”.

Em torno da noção de corpo, ganha contornos a fenomenologia proposta por Merleau-Ponty, uma “feno- menologia da percepção”, porque a intenção é “repor as essências na existência” e voltar “ao território pré-categórico de percepção das coisas do mundo”. Aos expor e discutir essas ideias, Carlos Japiassú parece buscar uma perspectiva que integre o racional e o sensível, perspectiva de grande relevância para o estudo integrado de literatura e filosofia, já que uma é comumente associada à ordem do racional, e a outra à do sensível.

Fechando a revista, uma inspirada resenha de Romero Venâncio. O objeto de apreciação é o filme Inimigos públicos, do diretor Michael Mann. Trata-se de crítica com grande teor e preocupação filosóficos, com referências acadêmicas em geral não esperadas em resenhas cinematográficas. Romero parte do jogo que observa entre a cor e o preto-e-branco para caracterizar a estética do diretor. Nota-se um certo embaralhamento, com o colorido do filme dando por vezes a aparência do preto-e-branco. Esse embaralhamento fundamenta a caracterização da “estética da violência” de Michael Mann, a qual não deve se confundir com a “banalização da violência” típica do modelo hollywoodiano. Michael Mann não é nem um pouco maniqueísta. As fronteiras do bem e do mal se confundem na sua película, se interpenetram, abrin- do espaço para a manifestação dos problemas sociais decorrentes da organização desigualitária da moderna sociedade de classes. Um desses problemas é o que Romero nomeia “crepúsculo da individualidade”, em especial a “encenação da morte do indivíduo no interior da cultura do espetáculo”.

Os editores
Celso Cruz
Maria A. A. de Macedo

4

A Albertine de Proust como tradução da pura hecceidade deleuze-guattariana

Bernardete Oliveira Marantes

Doutora em Filosofia/USP



8

Heidegger e sua apropriação filosófica de Hölderlin

Daniel Teixeira da Costa Araujo

Doutorando em Letras Neolatinas/UFRJ



18

O riso de Demócrito na tradição literária

Francisco Jose da Silva

Prof. Mestre em Filosofia/UFC Cariri



34

Michel Foucault no contexto da pós-modernidade: prólogo para uma teoria literária

Maria A. A. de Macedo

Departamento de Letras Estrangeiras/UFS



40

A percepção como valor epistemológico na Fenomenologia da percepção,
de Maurice Merleau-Ponty

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz

Departamento de Letras Vernáculas/UFS



53

Inimigos públicos ou Um rebelde que quer um lugar

Romero Venâncio

Departamento de Filosofia/UFS



67

Bases indexadoras:

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