A Palo Seco, N. 2, 2010 - Escritos de Filosofia e Literatura 


A Palo Seco - N.11

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 2, N. 2, 2010
Escritos de Filosofia e Literatura


CONSELHO EDITORIAL

Celso Donizete Cruz
Cicero Cunha Bezerra
Dominique M. P. G. Boxus
Eduardo Gomes de Siqueira
Fabian Jorge Piñeyro
Jacqueline Ramos
Luciene Lages Silva
Maria Cristina Blink
Maria Roseneide Santana dos Santos
Oliver Tolle
Romero Junior Venancio Silva
Sílvia Faustino de Assis Saes


EDITORIA e EDITORAÇÃO
Celso Cruz


Sumário

Apresentação

Celso Donizete Cruz

 

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada

(“A palo seco”, João Cabral de Melo Neto)

 

 

O canto “a palo seco” é uma tradição musical da Andaluzia e uma das formas prototípicas do flamenco espanhol. Grosso modo, “a palo seco” é o canto flamenco “a capela”, isto é, só a voz, desacompanhada de qualquer instrumento musical (nem mesmo uma mísera e escassa castanhola!).1 É esse modo de cantar que João Cabral descreve e analisa em poema homônimo integrante de seu livro Quaderna, do final da década de 1950. Foi o poema a fonte de inspiração, quando buscávamos um nome para o nosso periódico.

Um nome pode ser uma sina. Embora não queira com isso dizer que devamos nos pautar necessariamente pelas características desse “cante”, tal como concebidas pela poesia cabralina. É ver o poema. Atributos como a secura,2 o despojamento,3 a incisividade de lâmina afiada,4 a precisão do risco e a dureza inquebrável de diamante,5 a nobre solidão (mostra de autossuficiência),6 a clareza cristalina, apolínea,7 entre outras – quem dera todas essas altas qualidades, mais o compromisso ético de lutar contra o silêncio,8 cuja enorme pressão o cante enfrenta. Quem há de querer ser tanto!

Um nome pode ser um horizonte, porém, e quem nomeia deve esperar ao menos um bafejo dos bons ou maus augúrios que uma palavra poderá evocar. Nesse sentido, ficamos sob nobre abrigo, penso eu, mesmo quando a expressão evoca o título da conhecida canção de Belchior, A palo seco, provavelmente inspirada no mesmo poema e que desesperadamente gritava em português (quando o desespero era moda em 73), para os que ainda se lembram...

Referências à parte, na prática a revista surgiu para documentar as atividades de nosso grupo de pesquisas, o GeFeLit, Grupo de Estudos em Filosofia e Literatura. No número 1, lançado em 2009, foram reunidos textos apresentados no I Colóquio Filosofia e Literatura da UFS, de 2008. Neste número 2, trazemos contribuições que remontam ao nosso I Seminário de Pesquisa, realizado no ano passado. É esse o caso dos artigos de Cicero, Jacqueline, Marcio e Fabian. Dois professores de filosofia, e dois de literatura. “O lugar da poesia na filosofia de Platão”, de Cicero Cunha Bezerra, revisita um tema amplamente conhecido: o caso da expulsão dos poetas da República idealizada pelo filósofo grego. Interessam as razões dessa expulsão, que irão justificar a proposta de Platão. Nesse ponto intervém a exposição de Cicero, atenta ao “papel político da poesia” na pólis. O autor do artigo procura enxergar, no que não está sozinho, “a crítica platônica aos poetas como parte integrante do seu projeto de reformulação da formação (paideia) grega clássica”. Aí temos um motivo para a condenação dos poetas; com eles, condena-se um modo antigo de formação, que afinal seria o que o filósofo realmente atacava. Na exibição dessa teoria, são perseguidos os passos, até os mais miúdos, em que os poetas são mencionados no texto da República. De passo em passo, compõe-se uma imagem platônica do poeta, a qual não leva em conta apenas o episódio da expulsão. A esse respeito, aliás, no final do artigo, temos uma sugestão de reintegração dos poetas, que seriam aceitos na República não como sábios (posição que Platão contestava), porém como amigos/amantes da poesia, os “filopoetas”.

O artigo de Marcio Gimenes de Paula trata do “uso da pseudonímia em Kierkegaard”, tema que apre- sentou em nosso I Seminário a convite do grupo, que vê a obra desse filósofo como uma das que transitam na fronteira entre as duas áreas a cuja pesquisa nos dedicamos. O texto de Marcio, definido como “tentativa de catalogar as obras e os pseudônimos de Kierkegaard”, oferece como que uma cronologia comentada da produção kierkegaardiana, dividida entre as obras assinadas pelo nome próprio do autor e as obras “pseudonímicas”. Entremeadas a essa catalogação, temos informações sobre a vida, os principais temas desenvolvidos nas obras e alguma fortuna crítica desse célebre pensador dinamarquês.

Do lado dos literatos, o texto de Jacqueline Ramos, “Filosofia e literatura”, vai direto ao assunto na divulgação do “método crítico de Benedito Nunes”. Esse grande intelectual de nossas letras tem toda sua trajetória pontuada pelo íntimo contato entre essas duas áreas, e por isso suas ideias sempre estiveram no centro de nossos debates, desde o começo. (Inclusive, o II Colóquio Filosofia e Literatura, evento organizado pelo grupo neste mesmo ano de 2010, rende homenagem ao professor e crítico paraense.) O artigo de Jacqueline focaliza dois textos em que Nunes se concentra sobre o próprio fazer crítico, o que implica o discurso sobre as relações que sustenta entre filosofia e literatura. O exame dessa metacrítica é realizado no intuito de definir abordagens possíveis inspiradas pela aproximação dessas duas grandes áreas.

Já Fabian Piñeyro, em “O reconhecimento da Mulher-Aranha”, propõe uma experiência: enxergar as diferenças dos textos filosóficos e literários na comparação de dois livros sobre um mesmo assunto, um, A luta pelo reconhecimento, escrito por um filósofo, o alemão Axel Honneth, e outro, O beijo da Mulher-Aranha, romance do escritor argentino Manuel Puig. Ressalvados os intervalos de espaço e tempo a sepa- rar os dois autores, e assumindo que ambos tratam de um mesmo tema, o reconhecimento, é possível distinguir claramente o agenciamento de técnicas e táticas muito distintas de desenvolvimento temático. Fabian destaca o trabalho com o tempo como uma das diferenças elementares na exposição do tema pelo filósofo e pelo literato.

As demais contribuições deste número 2 vêm de outros integrantes do GeFeLit. Sílvia Faustino de Assis Saes nos traz um ensaio sobre o “niilismo linguístico de Rousseau”. Partindo de uma indicação de Bento Prado Jr. a respeito do Ensaio sobre a origem das línguas, de Rousseau, Sílvia equaciona os termos que configuram a visão linguística do filósofo francês. Para entender por que essa visão é niilista, será preciso considerar que a concepção de Rousseau confere maior valor ao aspecto retórico em detrimento do aspecto “logocêntrico” da linguagem. Para ele a origem da língua está associada “à afetividade e à moralidade”. Como o racionalismo logocêntrico tende a triunfar com o progresso civilizacional, as perspectivas rousseaunianas são pessimistas. E isso não é tudo, porque o ensaio de Sílvia também leva em conta a substituição, detectada por Rousseau, da ordem alcançada pelo poder persuasivo inerente à estrutura musical da linguagem, trocada pela ordem imposta à força pelo poder político dominante, independentemente de qualquer forma de persuasão. Essa é uma outra razão do niilismo de Rousseau, demonstrado com bastan- te precisão, ao lado de outros pontos de interesse de seu pensamento linguístico.

Luciene Lages Silva, com “Metamorfose e transculturação em Guimarães Rosa”, propõe uma análise do conto “Meu tio o Iauaretê”, do escritor mineiro. Como o título do artigo já revela, a atenção é chamada para a transformação (que pode ser só um efeito de linguagem) sofrida pelo personagem principal do conto, resultado de um processo de perda progressiva de traços culturais, isto é, humanos. A ideia de transculturação surgiria no embate entre culturas distintas, a do índio e a do branco, tanto no ambiente do conto quanto por sob a pele do personagem principal. E ainda temos a questão de saber se este último consegue fugir a esse embate pelo retorno à pura condição de natureza. Coisas que intrigam no conto de Rosa, autor que nos instiga e sempre nos surpreende.

Romero Venancio faz a resenha da peça Quebra-quilos, criação do grupo de teatro Alfenim, da Paraíba, que põe em cena o episódio histórico da Revolta do Quebra-Quilos, de meados de 1870, movimento popular que teve início nesse Estado e se espalhou por todo o Nordeste. Romero vai identificar componentes da montagem que estão de acordo com preceitos desenvolvidos pelo teatro politizado de Bertolt Brecht, ademais de destacar a originalidade e o arrojo próprios a esse trabalho do grupo paraibano, cuja iniciativa é saudada como um caminho possível para o teatro que não queira se limitar à afetação frugal e mediana da predominante, e nem sempre lucrativa, estética televisiva.

Dominique M. P. G. Boxus reproduz os resultados de um trabalho de pesquisa desenvolvido com seus alunos de Literatura Francesa. “A França do século XIX: história, literatura e arte” oferece um painel histórico-literário desse país nesse século, partindo de seus antecedentes, que remontam à Revolução de 1789. As informações apresentadas foram colhidas “em grande parte a partir de obras escritas em francês por pesquisadores franceses”, “fontes de interpretação primeiras, [...] essenciais para se entender o campo francês e suas influências”. O conhecimento histórico é considerado fundamental para a compreensão da literatura e da arte, e a sequência de eventos e personagens referidos não são de fato tão comuns assim aos leitores brasileiros, por isso o percurso proposto pela pesquisa de Dominique funciona como um guia proveitoso para se situar em face do contexto acionado por criações artísticas e literárias francesas.

Fechando a revista, temos a ilustre presença do pensador alemão do século XVIII, Johann Gottfried Herder, por intermédio de seu texto “Monumento a Baumgarten”, traduzido e anotado por Oliver Tolle. Trata-se de um texto encomiástico dedicado ao filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten (1714- 1762), o primeiro a utilizar o termo “estética” para se referir ao mundo do “sensível” que, por extensão, poderá ser tomado como o mundo da “arte”. Curioso, dada a linha que orienta nosso grupo de pesquisa, que Herder refira a filosofia e a poesia como as bases do pensamento de Baumgarten. É mais um exemplo de aproximação efetiva entre as áreas. A tradução merece destaque pela eficáfia, não alheia à precisão terminológica e ao apuro estilístico exigidos para a obtenção da coerência e mesmo de certo sabor arcaico no trabalho com um texto de mais de duzentos anos de idade.

E assim vamos, ora dedicados diretamente à problemática central do grupo, ora a um dos lados da relação entre as duas áreas. Ora até a áreas conexas, como a história, a dramaturgia e a tradução, porém sempre às voltas com o exercício da linguagem, que nos irmana a todos.

Vale!

Celso Donizete Cruz

 


  1. Não será difícil encontrar na rede exemplos para audição. Há alguns no endereço http://www.radiole.com/especiales/enciclopedia_flamenco/cantes_paloseco.html.
  2. “[...] não o de aceitar o seco / por resignadamente, / mas de empregar o seco / porque é mais contundente”.
  3. “[...] o cante a palo seco / sem tempero ou ajuda”; “[...] cante despido”.
  4. “[...] cante desarmado: / só a lâmina da voz / sem a arma do braço”; “[...] é cantar contra a queda, / é um cante para cima, / em que se há de subir / cortando, e contra a fibra”.
  5. “A pele do silêncio / pouca coisa arrepia: / o cante a palo seco / de diamante precisa”.
  6. “[...] o cante mais só: / é cantar num deserto / devassado de sol”; “[...] cantar / num deserto sem sombra / em que a voz só dispõe / do que ela mesma ponha“; “[...] é o cante / que mostra mais soberba; / e que não se oferece: / que se toma ou se deixa; / cante que não se enfeita, / que tanto se lhe dá; / é cante que não canta,  / cante que aí está”.
  7. “[...] não é um cante a esmo: / exige ser cantado / com todo o ser aberto”; “é um cante que exige / o ser-se ao meio-dia, / que é quando a sombra foge / e não medra a magia”.
  8. “[...] é o cante / de todos mais lacônico, / mesmo quando pareça / estirar-se um quilômetro: / enfrentar o silêncio / assim despido e pouco / tem de forçosamente / deixar mais curto o fôlego”; “[...] é um cante / submarino ao silêncio“; “[...] é o cante / de grito mais extremo: / tem de subir mais alto / que onde sobe o silêncio”.
4

O niilismo linguístico de Rousseau

Sílvia Faustino de Assis Saes

Departamento de Filosofia/UFBA



7

O lugar da poesia na filosofia de Platão

Cícero Cunha Bezerra

Departamento de Filosofia/UFS



12

Filosofia e literatura: sobre o método crítico de Benedito Nunes

Jacqueline Ramos

Departamento de Letras/UFS-Itabaiana



20

Metamorfose e transculturação em Guimarães Rosa

Luciene Lages Silva

Departamento de Letras/UFBA



28

Teatro-política-história: algumas notas a partir de Brecht

Romero Venancio

Departamento de Filosofia/UFS



33

O reconhecimento da Mulher-Aranha

Fabian Piñeyro

Departamento de Letras/UFS



37

O uso da pseudonímia em Kierkegaard: um recorte explicativo

Marcio Gimenes de Paula

Departamento de Filosofia/Universidade de Brasília



41

A França no século XIX: história, literatura e arte

Dominique M. P. G. Boxus

Departamento de Letras/UFS



48

Monumento a Baumgarten

Tradução e notas de Oliver Tolle

Departamento de Filosofia/UFS



58

Bases indexadoras:

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