A Palo Seco, N. 6, 2014 - Escritos de Filosofia e Literatura 


A Palo Seco - N.11

A Palo Seco 2019
chamada para publicação

A partir desse ano de 2019,
A Palo Seco adotou o sistema de submissão em fluxo contínuo. Para o número de 2019 serão avaliados os artigos e traduções encaminhados até o dia 30 de junho de 2019.

Anais do IV Colóquio
Filosofia e Literatura: Poética

Com muita satisfação apresentamos os Anais do 4º Colóquio GeFeLit.
São 48 trabalhos sendo 3 conferências (resumos), 21 palestras (resumos) e 24 comunicações (textos completos).

Você tem notícia do latim?

A tese “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da conservação e o tempo da produção – discursos, práticas, representações, proposta metodológica” do prof. José Amarante Sobrinho recebeu o Prêmio Capes de Teses 2014 - Letras e Linguística

A Palo Seco, Ano 6, N. 6, 2014
Escritos de Filosofia e Literatura


CONSELHO EDITORIAL

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz
Dominique M. P. G. Boxus
Fabian Jorge Piñeyro
Jacqueline Ramos
José Amarante Santos Sobrinho
Luciene Lages Silva
Maria Aparecida Antunes de Macedo
Maria Rosineide Santana dos Santos
Oliver Tolle
Romero Junior Venancio Silva
Tarik de Athayde Prata
Ulisses Neves Rafael


EDITORIA e
PREPARAÇÃO DOS ORIGINAIS

Jacqueline Ramos
Luciene Lages Silva
Maria A. A. de Macedo


CAPA
José Amarante Santos Sobrinho


PAGINAÇÃO e REVISÃO TÉCNICA
Julio Gomes de Siqueira


Sumário

Apresentação

Jacqueline Ramos

Levei o Rosa na beira dos pássaros que fica no
meio da Ilha Linguística.
Rosa gostava muito de frases em que entrassem
pássaros.
E fez uma na hora:
A tarde está verde no olho das garças.
E completou com Job:
Sabedoria se tira das coisas que não existem.
A tarde verde no olho das garças não existia
mas era fonte do ser.
Era poesia.
Era o néctar do ser.
Rosa gostava muito do corpo fônico das palavras.
Veja a palavra bunda, Manoel
Ela tem um bonito corpo fônico além do
propriamente.
Apresentei-lhe a palavra gravanha.
Por instinto linguístico achou que gravanha seria
um lugar entrançado de espinhos e bem
emprenhado de filhotes de gravatá por baixo.
E era.
O que resta de grandeza para nós são os
desconheceres – completou.
Para enxergar as coisas sem feitio é preciso
não saber nada.
É preciso entrar em estado de árvore.
É preciso entrar em estado de palavra.
Só quem está em estado de palavra pode
enxergar as coisas sem feitio.

(Manoel de Barros)

 

 

É o transe ou a transa das palavras que nos levam a enxergar as coisas sem feitio. Modo de olhar ativo, que se quer árvore e assim obrar a percepção – mote que explicita ou implicitamente circulou entre os pesquisadores de nosso grupo de pesquisa, assim como dos demais colaboradores que se agregaram a nossas atividades este ano. Esse é um dos aspectos que se evidencia no conjunto de trabalhos deste número de nossa revista, que congrega textos resultantes das trocas promovidas pelo II Seminários de Pesquisa e, ainda, artigos de colaboradores externos.

O explorar as possibilidades de interlocução entre filosofia e literatura tem nos levado também a essa Ilha Linguística, fronteira, ponto de encontro: às vezes gravanha, às vezes pássaros. Nesse flerte entre literatura e filosofia, uma área abre-se ao olhar da outra, dão-se a ver, percebem-se nesse vertiginoso entreolharem-se. Também Benedito Nunes, em “Meu caminho na crítica”, vê o encontro das áreas num traspasse de linguagem, ponto de intersecção, “entra o poético na filosofia e entra o filosófico na poesia”, e conclui, “se, portanto, há traspasse, é porque, nesse nível, filosofia e poesia se encontram, se correspondem, se atravessam, e mesmo assim continuam diferentes. Sem coincidirem, enriquecem-se mutuamente” (2009, p. 27).

É justamente esse momento de traspasse que é flagrado por Carlota Ibertis em “prazeres e dores da estátua”. Nesse caso, não é o entrar em estado de árvore, mas inversamente, é a ficção da estátua que entra em estado de vida – tema recorrente na tradição ocidental – o meio de reflexão de Condillac para apresentar as faculdades mentais como derivadas das sensações.

E afinal percebemos o que procuramos ou as coisas se dão a ver a nossos sentidos? Essas duas vias são abordadas por Rodrigo Michell dos Santos Araujo em “Heidegger e Guimarães Rosa: mundo, espacialidade e poesia em dois contos de Corpo de baile”. Tanto em “Recado do morro” quanto em “Cara de Bronze” as coisas sem feitio só são enxergadas por quem está em estado de palavra. Por um lado o mundo que se manifesta: da boca do ermitão para a do louco, do bobo, da criança, do fanático, o recado do morro precisará ainda do artista, o cantador, para alcançar seu destinatário. Inversamente, é o vaqueiro Grivo, a pedido, que vai buscar o quem das coisas, a poesia, para Cara de Bronze. Em Heidegger e Rosa, poesia são os desconheceres, poesia é experimentação.

E a experiência literária, esse estado de palavra, Camille Dumoulié identifica no excesso: origem da inspiração criativa, expressão da desmedida por meio de personagens excessivos. O literário, em seu “Estética do excesso e o excesso da estética”, abre-se ao que a razão e o conhecimento lógico não podem abarcar.

Contrária ao excesso é a posição de Platão ao banir a poesia de sua república ideal. É sobre essa questão, a defesa da moderação, que nos fala Felipe Silva em “Moderação e paidéia na cidade ideal: Platão contraria a poesia na República?”.

Nada moderada é a relação erótica com a morte em poemas de Hilda Hilst, seu modo de experimentar, conhecer: sabedoria se tira das coisas que não existem. É sobre essa experiência extrema que somos introduzidos em “Hilda Hilst ou por uma poética do desejo” de Márcia Fontes e Romero Venâncio, em que o nada surge como destino e condenação da existência. Sim, para enxergar as coisas sem feitio é preciso não saber nada.

Os modos de uso também muito nos falam sobre a maneira que o latim é percepcionado em nossa cultura. Em “O latim na literatura brasileira: enfeitar, impressionar, ridicularizar”, José Amarante Santos Sobrinho visita momentos de nossa literatura para flagrar esse uso social do latim. Trata-se de uma pesquisa de fôlego e a seleção das ocorrências que discute desvelam esse lugar social do latim como parâmetro de distinção social. Quando presente nos textos cômicos percebe-se a denúncia de uma falsa erudição para causar boa impressão, já que saber latim era índice de distinção.

Também é o humor, pela via grotesca, que entra no jogo de perspectivas de muitas obras de Quevedo. A linguagem não é só gravatás ou pássaros, é igualmente bunda. Esse mundo do baixo é discutido por Leonor Demétrio da Silva em “O riso pícaro: entre a denúncia, a lição e a mera diversão”, em que tanto o humor festivo quanto o desapiedado participam da configuração grotesca e cômica do mundo, desvelando as fissuras na estrutura social de então.

É também Quevedo que inaugura nossa nova seção da revista, espaço para traduções de textos literários e filosóficos, atendendo a uma das linhas de pesquisa de nosso grupo. Daí a opção pela edição bilíngue – corpus para estudos tradutológicos. E não será o corpo fônico da bunda que Quevedo defende em seu “Graças e desgraças do olho do cu”. A paródia do estilo filosófico é resgatada nesta tradução anotada de Celso Cruz. Rosa viu beleza na bunda, Quevedo entreviu graça e também desgraças... Vale conferir essa percepção grotesca do baixo, esse mundo empírico de nossos sensores.

Jacqueline Ramos

4

Prazeres e dores da estátua: nota sobre aspectos
literários e filosóficos da ficção condillaciana

Carlota Ibertis

Filosofia/UFBA

RESUMO:
No Tratado das sensações, Condillac se serve da ficção de uma estátua para defender que tanto ideias quanto faculdades mentais derivam das sensações. O objetivo do artigo é apresentar essa ficção a partir de um trecho do texto de Borges “Dos Animales metafísicos” de El libro de los seres imaginarios, que sintetiza o espírito do texto condillaciano, salientando alguns aspectos literários do texto original como, por exemplo, a aproximação, embora limitada, com a estátua de Pigmalião na versão de Ovídio e nas de Boureau-Deslandes e Rousseau bem como os aspectos filosóficos para uma concepção da subjetividade em que o prazer funciona como princípio do desenvolvimento mental.
PALAVRAS-CHAVE: Iluminismo. Prazer. Sensação.


7

Heidegger e Guimarães Rosa: mundo, espacialidade e poesia
em dois contos de corpo de baile

Rodrigo Michell dos Santos Araujo

Mestre em Letras/UFS

RESUMO:
Este artigo investiga em dois contos de Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa, “O recado do morro” e “Cara-de-Bronze” – ambos pertencentes ao volume No Urubuquaquá, no Pinhém (1969) – o problema do mundo, da espacialidade e o lugar da poesia no horizonte da ontologia fundamental do filósofo alemão Martin Heidegger. A investigação divide-se em duas partes: (i) a partir da obra capital Ser e tempo (2011a) e de algumas preleções de 1928 a 1930, como também da década de 1950, trazer para o centro do espaço intervalar entre filosofia e literatura os conceitos de mundo e espaço de Heidegger, bem como a ligação ontológica do ser-aí com a espacialidade – essa própria etapa da investigação justifica ela mesma a sua contribuição para a teoria e crítica literárias, no que concerne a uma teoria do espaço; (ii) examinar o lugar da poesia nos contos: seu efeito (primeiro conto) e sua essência (segundo conto). Neste segundo momento, ao nos apropriarmos de um Heidegger tardio interessado na questão da arte, especialmente na poesia de Hölderlin, sublinhamos o caráter essencial da poesia, para o pensador alemão: fundação (do ser), abertura do mundo, deixar-habitar. Nosso argumento é que entre Heidegger e Guimarães Rosa, o que está em jogo nos contos selecionados é a compreensão da poesia como experiência. Entre o pensador da Floresta Negra e o autor mineiro consolidamos o encontro poesia e mundo, poesia e experiência.
PALAVRAS-CHAVE: Guimarães Rosa. Mundo. Espaço.


19

Esthétique de l’excès et excès de l’esthétique

Camille Dumoulié

Université Paris Ouest-Nanterre-La Défense

RÉSUMÉ:
Alors que la philosophie, pour des raisons éthiques et ontologiques, exclut l’excès de l’humain, la littérature révèle qu’il est inscrit dans l’essence de l’être parlant. Une forme d’excès est à l’origine de l’inspiration créatrice. De l’épopée à la tragédie et au roman moderne, la littérature met en scène des personnages excessifs. Cela n’implique pas, pour autant, que toute poétique soit expression de la démesure, même s’il existe bien une esthétique de l’excès. Néanmoins, l’esthétique en tant que telle, ainsi que Baumgarten l’a définie au XVIIIe siècle, a pour objet spécifique un réel en excès que la raison et la connaissance logique ne peuvent que dénier.
MOTS-CLÉ: Esthétique. Littérature. Réel. Exccès.


36

Estética do excesso e excesso da estética

Traduçao: Maria A. A. de Macedo

Letras/UFS

RESUMO:
Enquanto a filosofia, por razões éticas e ontológicas, exclui o excesso do humano, a literatura revela que ele está inscrito na essência do ser falante. Uma forma de excesso está na origem da inspiração criativa. Da epopeia à tragédia e ao romance moderno, a literatura coloca em cena personagens excessivos. Esse fato não implica, no entanto, que toda poética seja a expressão da desmedida, mesmo se exista, certamente, uma estética do excesso. Entretanto, a estética enquanto tal, assim como Baumgarten a define no século XVIII, tem por objeto um real em excesso que a razão e o conhecimento lógico não podem senão recusar.
PALAVRAS-CHAVE: Estética. Literatura. Real. Excesso.


46

Moderação e paideia na cidade ideal:
Platão contraria a poesia na república?

Felipe Gustavo S. da Silva

Mestrando em Filosofia/UFPE

RESUMO:
Este trabalho tem como objetivo analisar a natureza da poesia, via literária, sob o viés da proposta platônica na República. Na Paideia grega, o elemento da moderação aparece como fundamental nas ações a serem desenvolvidas pelo homem tanto no meio social quanto no restrito. Este elemento é objeto presente na República platônica, em que temos a oportunidade de verificar a importância de uma educação que visasse à moderação para a formação de uma cidade ideal, edificada pelo homem virtuoso. Mais especificamente, iremos tratar neste trabalho, como Sócrates sugere que deve conduzir-se a educação dos guardiões na República, e quais elementos seguir ou rejeitar nessa formação - destacando aqui o ideal da moderação e a proposta de “expulsar” a poesia mimética da cidade, conforme descrito no livro III e X. É nosso interesse analisar a educação proposta aos guardiões da cidade ideal como um apelo platônico à moderação. Neste trabalho, pretendemos responder a pergunta: Por que Platão despreza a poesia? O que ela tem a ver com a moderação e com a educação dos guardiões? A partir disso, pretendemos justificar o porquê de Platão adotar seu posicionamento frente ao processo educativo dos guardiões da cidade. Propomos uma leitura a partir do conceito de moderação, o que nos leva a concordar com o autor que, de fato, no contexto antigo, parece realmente necessário banir a poesia, devido ao fato dela incitar veementemente as partes mais baixas da alma, “alimentando” elementos da alma que deveriam ser controlados visando a Virtude. Ademais, é nosso interesse demonstrar que Platão não contraria a literatura sob véu poético mas apenas seleciona o modo e indica o caminho pedagógico para que, através da moderação, possa-se chegar à excelência.
PALAVRAS-CHAVE: Poesia. Moderação. Educação.


56

Hilda Hilst ou por uma poética do desejo. Algumas notas

Márcia Fontes | Romero Venâncio

Mestre em Filosofia/UNICAMP | Filosofia/UFS

RESUMO:
Para discutir o debate poético na obra de Hilda Hilst, efetuaremos um breve percurso pelos poemas que compõem o livro Do Desejo, seguindo por uma, dentre as tantas possíveis, interpretação que nos servirá de guia: a de que esta composição descreve a relutância da poetisa, sua revelia perante o Nada: destino e condenação da existência.
PALAVRAS-CHAVE: Hilda Hilst. Poética do desejo. Nada.


64

O latim na literatura brasileira: enfeitar, impressionar, ridicularizar

José Amarante Santos Sobrinho

Letras/UFBA

RESUMO:
Decorrente das atividades de pesquisa desenvolvidas a partir do projeto Em busca de fontes para uma história social do latim no Brasil, este artigo apresenta algumas discussões em torno dos usos do latim na literatura brasileira, principalmente, e das representações, muitas vezes em tom cômico, que esses usos estabelecem. Assim, em algumas cenas, passeamos por momentos e por autores de nossa literatura, em especial por obras de Gregório de Matos e de Machado de Assis, observando que, muitas vezes, os usos do latim em nossas terras e em nossa literatura terminam por funcionar como formas de enfeitar, impressionar ou ridicularizar.
PALAVRAS-CHAVE: Latim no Brasil. Literatura brasileira. Gregório de Matos. Machado de Assis.


74

O riso pícaro: entre a denúncia, a lição e a mera diversão

Leonor Demétrio da Silva

Mestre em Letras/UFS

RESUMO:
O romance picaresco sempre esteve adscrito aos gêneros cômicos. Seu protagonista pícaro, trapaceiro e fingidor fez dessa tradição literária um terreno fértil no campo da comicidade. O personagem, amiúde associado ao bobo da corte medieval, será o alvo da gargalhada do leitor. Sua posição baixa na sociedade, assim como suas aspirações de nobreza em um momento histórico em que o sistema feudal estamental tentava sobreviver, tornou sua missão em uma tarefa difícil e cheia de incidentes de caráter cômico. Através do presente artigo, procuraremos discutir como o humor festivo popular carnavalesco, assim como o humor desapiedado da sátira moderna estiveram sempre presentes nesse tipo de romance. Sua função oscilará entre denunciar os movimentos sociais que o incipiente capitalismo do Barroco espanhol começava a permitir, dar lições de moral aos indivíduos que ousavam quebrar a ordem social e divertir o público que censurava tal atrevimento.
PALAVRAS-CHAVE: Picaresca. Comicidade. Carnavalização. Sátira.


86
Traduções

Gracias y desgracias del ojo del culo
Graças e desgraças do olho do cu

Versão brasileira: Celso Cruz



98

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